Ensaio

A clínica da neurose e outros aspectos

02:11 · 22.06.2013
Tais avanços na teoria psicanalítica resultam um acentuado progresso na concepção de sintoma, o qual nos permite abordar alguns dos fenômenos da clínica da neurose obsessiva considerando novos dados. Dessa maneira, no que se refere à compulsão a repetição, é nos possível observar que, de certa forma, a expressão da pulsão se faz presente na clínica da neurose obsessiva como deflagradoras de fatos que operam sobre o psiquismo e estão para além do princípio do prazer.

O sentimento de culpa

Em O Eu e o Isso (1923/2006), outro fenômeno clínico observado por Freud, a reação terapêutica negativa evidencia a expressão do sentimento de culpa por meio da insistência em estar doente. (Freud, 1923/2007). Tal sentimento, nos casos de neurose obsessiva e melancolia, se produz por meio da manifestação de uma tensão entre o Eu e o Ideal-do-Eu. Nessa neurose não é evidente a razão de sua culpa. Tal se dá pelo fato de o Supereu sofre influências do Isso, as quais permanecem obscuras para o Eu. Este último, por sua vez, mobiliza-se a fim de rejeitar o sentimento de culpa, diferentemente do que ocorre na melancolia, na qual o Eu se submete às punições sem objeções. (Freud, 1923/2007).

Freud destaca, então, que nesta há uma regressão a fases pré-genitais (oral-sádica, anal-sádica), o que permite a transformação de impulsos amorosos em impulsos agressivos. Tal impulso destrutivo dirigido ao objeto não é acatado pelo Eu, o qual se utiliza de medidas preventivas (formações reativas) a fim de isolar tais impulsos no Isso. O problema se dá pelo fato de o Eu ser tomado pelo Supereu como o responsável por tais tendências agressivas dirigidas ao objeto. Evidencia-se, portanto, a encruzilhada em que o Eu se encontra, já que concomitantemente deve se defender das exigências do Isso e das acusações implacáveis da consciência moral. Obtém apenas um êxito parcial nessa tarefa. Portanto, uma vez que o Eu se mostra insuficiente em confinar totalmente os impulsos agressivos no Isso, apesar de haver inicialmente um auto- tormento, a tendência destrutiva se dirigirá aos objetos. (Freud, 1923/2007).

O supereu

Ao se perguntar acerca da origem da crueldade característica do Ideal-do-Eu, Freud considera que esta seria proveniente da defusão pulsional resultante da formação do Supereu. Noutros termos, o Supereu se origina a partir da identificação com o modelo paterno, o que exige uma dessexualização, tornando o componente erótico - o qual tem capacidade de amalgamar-se à destrutividade - ausente. Não tendo com o que se entrelaçar, a destrutividade se manifesta por meio da tendência agressiva. (Freud, 1923/2007). Freud destaca, ainda, a condição de servo a três senhores que é inerente ao Eu, a saber, o Isso, o Supereu e a realidade. Sua relação com a realidade muitas vezes é escamoteada a fim de que as exigências pulsionais do Isso sejam satisfeitas. Uma das formas de escamoteamento a qual Freud aponta consiste justamente em racionalizações pré-conscientes, típicas da neurose obsessiva, que objetivam encobrir as ordens inconscientes do Isso. (Freud, 1923/2007).

A angústia

Segundo Freud (1926/2006), a inibição guarda íntima relação com a angústia, pois "algumas inibições obviamente representam o abandono de uma função porque sua prática produziria ansiedade" (FREUD, 1926/1996, p.92). Tal é evidente nos atos obsessivos, muitos dos quais "vêm a ser medidas de precaução e de segurança contra experiências sexuais" (FREUD, 1926/1996, p.92).

A inibição é uma medida do Eu para que ele não tenha que fazer uso de mais defesas. Já quanto aos sintomas nessa neurose obsessiva ressalta que as formas assumidas pelo sintoma tornam-se caras ao eu: (Texto V)

Esse ganho secundário para com a doença é mais um dos obstáculos ao trabalho analítico: (Texto VI)

Em prosseguimento às nossas observações, deparamos a seguinte constatação: os sintomas da neurose obsessiva podem ser duplamente agrupados: (Texto VII)

Na formação de sintomas, o Eu, com sua tendência em promover a síntese, combina a proibição com a satisfação: (Texto VIII)

Assim, pode ocorrer de o sujeito fazer com que seu sintoma adquira além do significado original, um significado oposto. Isso marca a grande expressão que tem a ambivalência na neurose obsessiva, exemplificada através dos sintomas bifásicos, que consistem em uma sucessão de duas ações, na qual a segunda para ou desfaz a primeira.

O complexo de Édipo

Ao procurar compreender a gênese dessa neurose, Freud conclui que ela, assim como a histeria, origina-se da necessidade de desviar as exigências libidinais do complexo edipiano (Freud, 1926/1996, p.115). O complexo de castração emerge como sendo a força motora da defesa (Freud, 1926/1996, p.116). O advento do Supereu resulta na edificação de barreiras éticas e estéticas no eu. Na neurose obsessiva, tais processos são levados mais adiante que o normal, pois: (Texto IX)

O medo que o Eu tem do Supereu deve-se ao fato de que o pai encontra-se despersonalizado nele; e o medo de castração transformou-se "numa ansiedade social ou moral indefinida"(FREUD, 1926/1996, p.128). Nesse texto, Freud apresentou como alguns mecanismos de defesa funcionam na neurose obsessiva e suas consequências para a formação dos sintomas. Mostra, de forma precisa, como isso se manifesta clinicamente: (Texto X)

Esperamos que nossa investigação, tendo como fonte a leitura de diversas obras de Sigmund Freud haja contribuído, de modo sistemático, para a abertura de mais caminhos para o mergulho na complexidade dos estudos dos escritos freudianos, por parte de profissionais ou de simples curiosos do saber. ( E. S. T & H. R. N.)

Trechos

TEXTO V

porque obtêm para este, não certas vantagens, mas uma satisfação narcísica sem a qual, de outra forma poderia passar. Os sistemas que o neurótico obsessivo constrói lisonjeiam seu amor próprio, fazendo-o sentir que ele é melhor que outras pessoas, porque é especialmente limpo ou especialmente consciencioso. (FREUD, 1926/1996, p.102)

TEXTO VI

quando o analista tenta subsequentemente ajudar o ego em sua luta contra o sintoma, verifica que esses laços conciliatórios entre o ego e o sintoma atuam do lado das resistências e que não são fáceis de afrouxar" (FREUD, 1926/1996, p.102).

TEXTO VII

são ou proibições, precauções e expiação - isto é, negativos quanto à natureza - ou são, ao contrário, satisfações substitutivas que amiúde aparecem em disfarce simbólico" (FREUD, 1926/1996, p.114).

TEXTO VIII

de modo que o que era originalmente uma ordem defensiva ou proibição adquire também a significância de uma satisfação; a fim de alcançar essa finalidade muitas vezes faz uso das trilhas associativas mais engenhosas" (FREUD, 1926/1996, p.114).

TEXTO IX

além da destruição do complexo de édipo, verifica-se uma degradação regressiva da libido, o superego torna-se excepcionalmente severo e rude, e o ego, em obediência ao superego, produz formações reativas de consciência, piedade e asseio" (FREUD, 1926/1996, p.116).

TEXTO X

... é especialmente difícil para um neurótico obsessivo levar a efeito a regra fundamental da psicanálise. Seu ego é mais atento e faz isolamentos mais acentuados, provavelmente por causa do alto grau de tensão devido ao conflito que existe entre seu superego e seu id. Enquanto o neurótico está empenhado em pensar, seu ego tem de manter muita coisa afastada - a intrusão de fantasias inconscientes e a manifestação de tendências ambivalentes. Ele não deve relaxar, mas está constantemente preparado para uma luta.

Ele fortifica essa compulsão a concentrar e a isolar mediante a ajuda dos atos mágicos de isolamento que, sob a forma de sintomas, se desenvolvem, passando a ser tão dignos de nota e a ter tanta importância prática para o paciente, mas que são, naturalmente, inúteis em si e que têm a natureza de cerimoniais. (FREUD, 1926/1996, p.122)

SAIBA MAIS

FREUD, S. Além do Princípio do Prazer (1920a) In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente, vol. 2. Rio de Janeiro: Imago, 2004

FREUD, S. O Eu e o Id (1923) In: Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente, vol. 3. Rio de Janeiro: Imago, 2007

FREUD, S. O Ego e o Id (1926) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. 19. Rio de Janeiro: Imago, 2006

FREUD, S. Inibições, Sintomas e Ansiedade (1926) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. 20. Rio de Janeiro: Imago, 1996

ROUDINESCO, Elisabeth & PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998

FREUD, S. As neuropsicoses de defesa (1894) In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, vol. 3. Rio de Janeiro: Imago, 1996

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