Lançamento

A chama de Candeia

O mestre sambista, que este ano completaria 80 anos, ganha caixa com relançamentos e duas coletâneas inéditas

00:00 · 28.01.2015

Um grande sambista, bamba, como se diz, traz sempre, no bojo de seu violão, acordes e versos com força suficiente para ressoar longe, amplificados nas diferentes rodas e gerações do samba. A fulminante participação do mestre Antônio Candeia Filho (1935 - 1978), foi dessas. Em menos de vinte anos, foi gravado por incontáveis intérpretes do samba e lançou os nove LPs de sua discografia, imortalizando um repertório que ainda hoje é reverenciado. Prestes a completar 80 anos de seu nascimento, o sambista ganha, pelo selo Discobertas, uma caixa com cinco discos.

Quase quatro décadas após sua morte, a chama de Candeia aquece e perdura ainda em versões como "Preciso me encontrar", imortalizada por Cartola, ou "O Mar Serenou", na voz de Clara Nunes, dois de seus maiores sucessos, ou ainda no partido alto "Eskindolelê", do repertório permanente das rodas de samba. Na caixa preparada pelo selo Discobertas, estão reeditados os três primeiros discos do compositor, "Candeia" (1970), "Raiz" (1971) e "Samba de roda" (1975).

"Conheci a obra de Candeia quando estava fazendo o box de Beth Carvalho e ela me chamou atenção para o trabalho dele. Ao verificar que seus álbuns iniciais haviam saído por selos extintos que estavam com a Discobertas, resolvi relançá-los", situa o pesquisador e responsável pelo relançamento, Marcelo Fróes.

Os discos iniciais da carreira do sambista já fizeram parte de uma primeira caixa, lançada pelo selo em 2011.

A nova caixa inclui, além dos três discos, duas seleções inéditas do compositor. "Candeia - Raridades" reúne fonogramas que haviam sido lançados de forma avulsa pelo compositor, incluindo músicas como "Samba da tendinha" e "O último bloco", lançadas em compacto de 1972, e ainda "Deixa a zanga" e "Meu dinheiro não dá", originalmente lançados na coletânea de 1972 "Minha Portela querida", que reunia os sambas de terreiro que concorreram para o carnaval daquele ano, participantes da primeira edição do concurso, que foi presidida pelo próprio Candeia.

Também estão entre as raridades gravações do compositor com o grupo Partido em 5, de 1975; e uma pérola, "Sou mais o samba", gravada em 1977 com participação de Dona Ivone Lara.

Para a outra seleção original, foram escolhidas versões de seus sambas gravados por intérpretes como Elizeth Cardoso, Elza Soares, Jair do Cavaquinho e Abílio Martins.

A maior parte deles, em versões anteriores à estreia de Candeia em disco, como intérprete. Abre a seleção a bela "Já sou feliz!", com Abílio Martins acompanhado pelos músicos da Portela, extraída do disco "Grandes Sucessos da E.S. Portela" (1962). Elizeth grava em 1965 o samba canção "Minhas Madrugadas", parceria com Paulinho da Viola, que Candeia também incluiu no disco LP, "Raiz".

A chama do Candeia compositor também, na voz de Elza, ficou registrada em 1969 no LP "A Flor e o Samba", título que também faz referência ao sambista.

Influência

A caixa com os cinco discos foi lançada em dezembro do ano passado, explica Fróes, por uma demanda do próprio mercado, que aceita bem este tipo de produto. A homenagem aos seus 80 anos, confessa, ficou por conta do destino. "Só agora em janeiro me toquei dos 80 anos. Enorme coincidência!", comemora Marcelo.

Acidente

Referência para grandes sambistas, desde contemporâneos seus como Cartola e Nelson Cavaquinho, a nomes mais jovens, gravado por Martinho da Vila, pelo parceiro Paulinho da Viola, pela própria Beth Carvalho e jovens interpretes como Tereza Cristina (que dedicou um espetáculo em sua homenagem ano passado), Candeia tem sua trajetória e consagração marcada por uma tragédia pessoal.

O músico foi um dos fundadores da Portela. Filho do sambista Antônio Candeia e de Dona Maria, em sua casa estavam sempre presentes figuras como Paulo da Portela e Dino do Violão. Ainda garoto já tocava violão, cavaquinho, e aos 18 anos, samba entre os enredos da Portela.

Nos anos 1960, o músico dividia a atuação como sambista com ofício de Policial Civil. Envolveu-se, em 1965, em uma briga de trânsito, trocando tiros com outro motorista. Baleado, o músico perdeu o movimento das pernas. O tempo que lhe restou, após ser aposentado por invalidez, foi inteiramente revertido em sambas, dando início à carreira como intérprete e criando, a partir dos conflitos e do amadurecimento forçado pelo acidente, sambas célebres como "De Qualquer Maneira", em que cita a deficiência, e "Preciso me encontrar". Faleceu em novembro de 1978, vítima de complicações renais decorrentes da paralisia. Seus sambas, seguem, ainda, iluminados!

Discos

Sou mais o samba
Candeia

Discobertas
2014 , cinco discos
R$ 109,90

Fábio Marques
Repórter

Comentários


Li e aceito os termos de regulamento para moderação de comentários do site.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.