ARTES VISUAIS

A casa e o risco

01:27 · 03.02.2009
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Járed Domício e Claudia Sampaio abrem hoje as exposições “Desenhos e Outras Situações de Risco” e “+ Um Dia...”, no Centro Cultural Banco do Nordeste

Há cinco anos, a artista visual Cláudia Sampaio leva um pouco do número 158 da Rua Oliveira Viana, no Papicu, para mais perto dos apreciadores da arte. Depois de ser apresentada em alguns espaços culturais da cidade e de chegar a Nuremberg, na Alemanha, a exposição “+ Um Dia...” volta ao Centro Cultural Banco do Nordeste. Paralelo a seus seis compartimentos, ali mesmo no CCBNB, Járed Domício discorre sobre sua pesquisa em torno de outros espaços, vislumbrados sob a poética de “Desenhos e outras situações de risco”. Aqui encontramos um artista que desafia os espaços de uma arquitetura visual mais próxima ao cotidiano das criações tradicionais. Ambas abrem hoje.

O público e o privado compartilham de um cenário íntimo, descrevendo, às vezes literalmente, um pouco do cotidiano caseiro de Claudia. Segundo a curadora Adriana Botelho, ela promove “uma autobiografia expressa no diálogo de formas plásticas no espaço de sua casa. Apropria-se de paredes e pisos. As paredes estão preenchidas de suas marcas, fissuradas, grafitadas, arrancadas... Deixando visível o reboco estrutural, partes delas remendadas com band-aid, casa-corpo”.

A própria artista nos orienta melhor. “A casa sofre um processo de intervenção nas paredes, usadas como suporte, uma criação que vejo como uma forma de dialogar no espaço que habito”. Em madeira, imitando a alvenaria da casa, entre objetos de suas memórias, plotagens, letras de música. “A casa é um site, local onde desenvolvo meu trabalho e que vou tentando elaborar em outros locais”, complementa.

Claudia assume influências, referências, sempre reelaboradas conforme sua própria subjetividade: Kurt Schwitters (casa Merz), Joseph Beauys, Leonilson e Farnese de Andrade. “Impossível não existir influências. Em arte, tudo são ressignificações, releituras, feitas por cada um”. Pós graduada em Arte e Multimídia, pela Universidade Federal do Amazonas, com uma trajetória iniciada em 1990, a artista ressalta: “Não sei até quando vou mantê-la, ela vai reverberando para cada espaço, dialogando cada local com o outro”. Afinal, o tempo é um aspecto agregador à obra. “Tudo contém a passagem do tempo, na ferrugem dos metais, no esmaecimento das cores, no pó das paredes, no mofo do ar”, lembra a curadora.

O ato de desenhar

O intimismo e o exterior também marcam a criação de Járed Domício, conforme descreve o curador de sua “Desenhos e Outras Situações de Risco”, Bitu Cassundé. “Esses espaços que Járed problematiza refletem questões que percorrem a sua poética e se conectam na formação de uma rede, campo de atuação, revelando interesses como: arquitetura, corpo, auto-retrato, linha, ironia, natureza etc. Em alguns trabalhos como o site-specific ‘redesenho’, o espectador é agente ativo na percepção da obra”. Ao texto do catálogo da exposição, editado abaixo, Bitu cita de Foucault a Gaston Bachelard para descrever a convivência com a imagem. E completa. “A exposição é o resultado de uma pesquisa artística sobre o ato de desenhar. O risco e o traço são avaliados sob a ótica de diferentes técnicas e formas de observar”.

Arquitetura do desenho e outras poéticas do espaço

A bifurcação semântica que se localiza na palavra “risco” também habita a produção de Járed Domício. A exposição “Desenhos...” traça a poética desenvolvida pelo artista nos últimos anos.

Com uma sintaxe construída na estruturação de um vocabulário plástico, marcado por pesquisas que revelam em sua arqueologia referências construtivas, minimalistas e pós-minimalistas, o processo do artista se localiza na estruturação do “risco”, na ousadia de direcionar suas pesquisas para diversas linguagens como a fotografia, a escultura, a pintura, a instalação, o vídeo e o objeto, ao traçar com coerência e posicionamento sua obra na produção contemporânea brasileira.

Com trabalhos geralmente associados à arquitetura, à desconstrução ou ao desequilíbrio dessa arquitetura, as pesquisas do artista se relacionam com mais intensidade nas questões do espaço, como é habitado e manipulado.

Essa manipulação ou crítica espacial – que permeia o corpo/arquitetura de ações nas instituições ou na cidade e que reflete aspectos políticos e sociais de uma forma direta ou não – percorre um conjunto significativo de suas obras como: área de insegurança (2003), vala comum (2005), lugar solúvel (2006), redesenho (2007) etc. Entre os site-specifics citados, redesenho é um dos trabalhos que compõe a mostra.

E se existe um elemento fundador na poética de Domício, poderíamos citar o desenho como agente norteador. Ele revela-se dentro da sua produção como uma força potencializadora de pensar o risco/traço/linha, além de ser usado como um canal de reflexão para o exercício da sua poética. É na construção de uma nova espacialidade através do desenho, que a arquitetura surge nas suas intervenções.

Refletir sobre a espacialidade presente na poética de Domício é observar construções plásticas que falam de vários espaços, é também discutir sobre as camadas existentes nas diversas aproximações que formam o espaço residual. Michel Foucault na conferência intitulada “De Outros Espaços”, proferida em 1967, discute o Espaço/Lugar e observa as relações construídas por esses:

“A nossa época talvez seja, acima de tudo, a época do espaço. Nós vivemos na época da simultaneidade: na época da justaposição, do próximo e do longínquo, do lado-a-lado e do disperso”.

BITU CASSUNDÉ
Curador


HENRIQUE NUNES
Repórter

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