Ensaio

A busca obsessiva pelo inefável

01:06 · 21.09.2013

A distinção entre os gêneros poesia e prosa deve ser encontrada no conteúdo e não na forma em cada um se expressa. A poesia não está restrita a se apresentar somente em versos. Ela pode estar encerrada na forma de expressão típica da prosa, utilizando toda a página e ordenada em parágrafos.

Há também a prosa poética, mas nesse caso, os papéis se invertem: predominam as características do gênero prosa, como narratividade, situação espacial e temporal, relações de causa e consequência, expressas com ingredientes formais poéticos. A mais característica prosa poética de nossa literatura é o romance "Iracema" de Alencar.

A voz do poema continua a ser encarada como a do eu lírico, que na busca do inefável chega mesmo a se distanciar dos "lados comuns da Vida humana": (Texto III)

Leitura do excerto

Esse eu lírico eleva seu espírito em busca de algo que possa abrigá-lo, confortá-lo diante de tanto sofrimento vivido. O objeto almejado é lentamente revelado - é a própria arte, sua poesia. Ele fala, portanto, de si mesmo, do seu fazer poético, da importância da arte e do que ser artista representaria em sua vida. É um primeiro e sutil desvelar da face do poeta através da voz lírica. Inicia-se a aproximação entre o eu poemático e o autor.

As imagens de dor e dilaceração, mensuráveis às sofridas por Cristo, acrescentam características de Cruz e Sousa ao sujeito lírico. Filho de escravos, não obstante a educação e o nome da família a quem seus pais serviam, vivenciou o preconceito e a hostilidade da sociedade de sua época. Nem a publicação de "Missal" e "Broqueis" em 1893 trouxe-lhe aceitação generalizada e, somente em poucos, aqueles que o chamavam de Dante Negro, inspirava respeito e admiração. Sofria em sua vida pessoal, pois à época da elaboração de "Evocações", a morte levara o pai e a loucura pela morte dos filhos, a esposa.

O ideal poético

Mesmo diante de tanta adversidade, continua o eu lírico a perseguir sua arte. No trecho a seguir, ele concentra o ideal do fazer poético simbolista. Em oposição à realidade opressiva e dolorosa, o sonho simbolista representa a liberdade almejadas. (Texto IV)

Sua poesia reveladora e admirável, no entanto, era inadequada à "decrépita Convenção em letras maiúsculas" da concepção de arte de seus contemporâneos, menos talvez pela poesia em si e mais por sua origem africana, negra. A abstração do eu lírico concretiza-se, ganha raízes, as raízes da "flagelada África, grotesca e triste". O Dante Negro se expõe e expõe sua indignação com a extensão do preconceito com a cor da pele à sua poesia. E quando lemos, já perto do final do poema, "eu ouço, no adormecimento de certas horas uma voz ignota que parece vir do fundo da Imaginação murmurar-me", estamos diante do atordoamento do próprio poeta, não mais de sua idealização lírica.

As paredes

A pretensão do poeta negro de falar "em Abstrações em Sonhos" como se "fosse das raças de ouro e da aurora, se viesse dos arianos" é rechaçada e ele não alcançará a imortalidade do artista branco, não "transporá os pórticos milenares da vasta edificação do Mundo".

A sociedade em que vive não o aceita como artista - a estética simbolista ia contra os preceitos realistas e parnasianos prevalecentes no fim do século XIX - nem o enxerga como igual - em 1884 teve sua nomeação a promotor da província de Santa Catarina impugnada, então, pelos políticos locais: (Texto V)

À direita, uma parede de egoísmos e preconceitos. À esquerda encontraria a parede de "Ciências e Críticas", mais alta do que a primeira. À sua frente, a parede de "Despeitos e Impotências" e, para trás, a parede da "Imbecilidade e Ignorância". O mundo a sua volta corta as asas de sua libertação pela poesia e ele conclui assim seu poema: (Texto VI)

Algumas conclusões

O ritmo da parte final do poema transmite a intensidade das imagens simbólicas, nas repetições fortes e angustiantes. É o grito último do poeta, que vai sendo sufocado, diminuído à medida que se elevam, pedra a pedra, os cercos da civilização preconceituosa. Pelo branco se estabelece o negro de sua origem, sua pele e de sua poesia supostamente menor. O poeta, o homem Cruz e Sousa se vê preso, sufocado pelo preconceito, pela ciência e pela ignorância, elementos que constituíram o amálgama pétreo e terrível das rochas sociais que o enclausuram. No transcorrer desse turbilhão de sensações e sentimentos, ora melancólicos ora revoltos, o eu lírico toma a pele, negra, do poeta e com ele se confunde. Se, normalmente, a fronteira entre o eu lírico e o autor pode apresentar suas nuances, em "Emparedado" ela é ainda mais difusa e turva. Neste sublime poema em prosa, a dor fingida do poeta, não é, a rigor, uma dor tão fingida assim. É real, visceral, cortante e profunda, sentida por ele em negro e vermelho. (S. G. M.)

Trechos

TEXTO III


Elevando o Espírito a amplidões inacessíveis, quase que não vi esses lados comuns da Vida humana, e, igual ao cego, fui sombra, fui sombra! Como os martirizados de outros Gólgotas mais amargos, mais tristes, fui subindo a escalvada montanha

TEXTO IV

Deus meu! Por uma questão banal da química biológica do pigmento ficam alguns mais rebeldes e curiosos fósseis preocupados, a ruminar primitivas erudições...

TEXTO V

Não! Não! Não! Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, acumulando pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça.

TEXTO VI

E, mais pedras, mais pedras se sobreporão às pedras já acumuladas, mais pedras, mais pedras... Pedras destas odiosas, caricatas e fatigantes Civilizações e Sociedades... Mais pedras, mais pedras! E as estranhas paredes hão de subir, - longas, negras, terríficas!

SAIBA MAIS

CESCO, Andréia. Cruz e Sousa: emparedado em seu poema. Revista Literatura em Debate, v. 5, n. 9, p. 01-45, ago-dez, 2011

CRUZ e SOUSA, João da. Obras Completas. Rio de Janeiro,
Editora José Aguilar Ltda, 1961

MOISÉS, Massaud. História da Literatura Brasileira. Volume II - Realismo e Simbolismo.
São Paulo. Cultrix, 2001

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