Artes

A beleza do fim

Oi Futuro reúne obras de Daniel Arsham (EUA) e Makoto Azuma (JP), sobre tecnologia e espaço público

00:00 · 14.09.2017 por Antonio Laudenir - Enviado ao Rio de Janeiro
"Jardim Azul" (no alto), de Arsham, e "Gaibu - Fora", de Azuma ( Fotos: Paulo Johas/ Antonio Laudenir )

Sob o signo de dois artistas com significativa atuação na arte contemporânea, o centro cultural Oi Futuro do Rio de Janeiro lançou, no último dia 11, uma série de intervenções no território das artes visuais. Trabalhos de Makoto Azuma (JP) e Daniel Arsham (EUA) ocupam o prédio da instituição, no tradicional bairro do Flamengo. Com relevante trajetória no esgarçamento de manifestações que unem tecnologia e arte, o equipamento e sua programação também ganharam, literalmente, o olho da rua.

As obras dos dois realizadores integram o projeto de arte pública "Outras Ideias", em cartaz até 5 de novembro. Com curadoria de Marcello Dantas, a iniciativa finca suas bases na possibilidade de destronar barreiras geográficas e culturais.

Os trabalhos ocupam não só o espaço do museu, mas se lançam "para fora", ao encontro da cidade. No Aterro do Flamengo, "Outras Ideias" colide Oriente e Ocidente de modo inevitável e tange processos contemplativos da arte.

Aclamados por instalações dinâmicas e imersivas, a dupla estabelece suas trajetórias pela primeira vez no Rio de Janeiro. Em comum, o critério de gerarem propostas artísticas que desafiam as leis da natureza e estimulam a imaginação. No cardápio oferecido aos visitantes também constam peças em grande escala desenvolvidas especialmente para o evento.

Mudanças

Acumulando e contribuindo ao longo dos anos com as funções de curador, diretor artístico e documentarista, Marcello Dantas é o nome por trás desta reunião de talentos. Ao incluir tecnologia, interatividade e recursos multimídia, o pesquisador oferta "uma experiência de imersão total".

Diante de um cenário "borrado" pelos atuais e constantes cruzamentos entre mídias e plataformas na arte, interessa a Dantas o constante exercício de questionar o destino de uma obra. Nesse sentido, mais o que em outros momentos da história, testemunhamos um período de reviravoltas profundas e explícitas.

"O mundo ocidental se espelhou durante muito tempo na Europa e nos Estados Unidos. Esses dois lugares passaram nos últimos tempos por uma transformação profunda. A Europa tornou-se xenófoba e estabeleceu um abismo civilizacional, afinal você não pode almejar a uma sociedade que de antemão te rejeita", pondera o curador.

"Em seguida, veio o cenário Trump, que tornou os EUA uma sociedade avessa ao mundo, ou seja, criou-se um abismo de diálogo. Nesse cenário surgem as possibilidades de olhar pra outros lugares como interlocutores possíveis. E um dos lugares que possui um manancial de referências e de história muito forte é o Japão".

Características

Arsham optou por mapear um espaço para meditação e partiu dos caminhos da tradição japonesa dos Jardins Zen. Em solo brasileiro, o norte-americano edificou uma versão contemporânea, que aponta diretamente para um dos cartões postais da Cidade Maravilhosa, o Pão de Açúcar. Assim, eclode o diálogo entre um mundo exterior e interior batizado de "Jardim Azul".

Azuma, por sua vez, investe em um jardim floral onde a ideia é o público testemunhar a decomposição. A força desta produção, cravada naquele espaço de convívio público, reside na transformação pela qual a obra deverá sofrer nos próximos dias. A transitoriedade da matéria é inevitável.

Ao contrastar vida e morte, aguçar o natural e o efêmero, a obra "Gaibu - Fora" oferta uma espécie de agricultura inversa. Aquelas plantas não estão ali para se desenvolverem, mas para definharem e darem lugar a outras vidas. A vida, portanto, dissolve-se em uma beleza invisível e inevitável. Uma vida que se nutre de outra vida.

"Observo um trabalho que dialoga com a paisagem urbana. No caso do Arsham, há o diálogo entre a paisagem interior, o contato entre a paisagem da meditação (obra), e a 'paisagem absoluta' (recursos naturais da cidade). Existem poucos lugares do mundo com a espetacularidade do Rio. Há espaços com essa força visual: Grand Canyon, Machu Picchu, mas nenhum é uma cidade habitável e no Rio isso existe. Essa troca é muito potente, entre a paisagem e arte", descreve Dantas.

Jardim rocker

Natural de Fukuoka, Makoto Azuma mudou-se para Tóquio com o intuito de se tornar uma estrela do rock. Como as coisas nos palcos não iam nada bem, contraiu uma imensurável paixão pelas flores do Ota Market. Na casa dos vinte anos de idade, suou a camisa para entender os processos em torno da germinação, florescimento e consequente morte destas plantas.

Aos 41 anos, o mestre é questionado sobre o paralelo entre a música e o universo onírico das flores. Assume que existe uma semelhança em certo ponto. "Veja a flor, um arranjo é uma coisa que criamos através de um amarrado de flores, uma composição. Uma flor sozinha pode não fazer milagre, mas várias flores são capazes de alegrar as pessoas. A música também: uma nota sozinha não vai resolver nada e sim um conjunto de notas", compara.

"Um dó pode ter várias nuances. Seja a flor ou a música, ela procura expressar algo que sentimos, que não seja através de palavras", completa o artista.

Nesse intervalo, é necessário compreender o trabalho de Makoto pelo espectro da deterioração dos componentes orgânicos. Esta decomposição, interfere como algo de construção e entendimento, não de destruição. Por conta da origem, o realizador reflete a tradição do budismo, que abraça a crença no renascimento.

Com o suporte de um balão, o japonês, em parceria com a JP Aerospace, mandou uma árvore bonsai, além de orquídeas, lírios e outras plantas para a estratosfera. Todo o processo foi registrado com câmeras GoPro, presas às estruturas de fibra de carbono. Após atingir uma distância de cerca de 27 mil quilômetros do solo, os balões estouraram e voltaram à Terra com as flores mortas.

"Sou muito a favor da tecnologia e procuro sempre introduzir isso em meu trabalho. Mas comecei a perceber que o contrário (a flor) também facilita a aproximação com as pessoas", pontua Makoto. Além da intervenção no aterro, um cubo de vidro com quase três metros quadrados está disposto no primeiro andar do Oi Futuro. O trabalho consumiu dois dias de atenção e a sala onde está inserido é completada com uma série de vídeos sobre a carreira do artista. Todo aquele harmonioso conjunto de pétalas irá definhar.

Vulcão

Aos 36 anos, Daniel Arsham agrega, da base localizada em Nova York, um trabalho caracterizado pela proximidade entre arquitetura, artes plásticas e cenografia, ao explorar materiais como isopor e espuma e recriar computadores obsoletos e telefones fixos, entre outros objetos, em pedra vulcânica ou cristal.

Construção e destruição, assim, são duas sombras intangíveis em sua perspectiva artística. Tanto o "Jardim Azul" como os trabalhos reunidos no museu da Oi incomodam pela degradação que sugerem.

Arsahm explica que é comum seus trabalhos serem classificados como "apocalípticos" em um primeiro momento. Todavia, alerta que ao inseri-los na natureza, a intenção é provocar mais atenção à paisagem ao redor do espectador, do que necessariamente à imagem "corroída e apocalíptica" de suas obras.

Em ambas as iniciativas, os questionamentos acerca da perenidade e dos caminhos trilhados pela arte - seja no âmbito institucionalizado do museu ou no modo de intervir na rua - constam como processos de constante adequação nas artes visuais.

Os trabalhos questionam um futuro mediado por uma visão amarga e violenta. O recado é que, mesmo frente à inevitabilidade do fim, podemos compreender este estágio da vida de maneira menos ordinária. Lidar com o sofrimento e a degradação dos corpos precisa de estados contemplativos cada vez mais aguçados.

"Vivemos uma autópsia em praça pública. O Brasil sempre foi dito como o país da cor, da vida, da luz, da alegria e percebemos esse retrato se decompondo. Esse momento histórico permite que entendamos a necessidade de nos reconectarmos com alguma origem. Sem isso não haverá plano de futuro", finaliza o curador.

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