Teatro

A atemporalidade da Miséria

Grupo Formosura de Teatro apresenta "Os Miseráveis: O Olho da Máquina" , hoje (17), às 19h30, no TJA

A montagem "Os Miseráveis", que bebe da referência de Victor Hugo e expande o drama original
00:00 · 17.02.2017

Adjetivo para designar pobres, desprovidos de valor, desgraçados, de tamanho inexpressivo: miseráveis. Em meados do século XIX, Victor Hugo buscou narrar a história de personagens comumente marginalizados pela sociedade, invisíveis às altas classes e tratados como figurantes nos relatos históricos.

No romance francês, ambientado no período entre a Batalha de Waterloo (1815) e os motins de junho de 1832, viveram Jean Valjean, ex-presidiário condenado por roubar um pão para a irmã e os sete sobrinhos, e Fantine, mãe solteira que passou a se prostituir para sustentar a filha.

A obra tornou-se um clássico da literatura ocidental e foi adaptada diversas vezes para o cinema, a televisão e o teatro, tendo uma de suas mais famosas versões transformada em um musical da Broadway.

Encantada com a sensibilidade da narrativa de Victor Hugo, Graça Freitas, membro do Grupo Formosura de Teatro, idealizou uma adaptação teatral que lhe parecia inalcançável, devido à complexidade da obra. Entretanto, através do III Laboratório de Pesquisa Teatral do Porto Iracema das Artes, foi possível concretizar o espetáculo.

"O romance é muito bonito e traz uma reflexão sobre a vida social muito importante. A adaptação era um objetivo que, há bastante tempo, a gente buscava alcançar, dada a altitude do romance", explica Graça, diretora da peça Os Miseráveis: O Óleo da Máquina". Apesar de inspirado na obra francesa, faz uma releitura a fim de tornar a peça atemporal.

"O Victor Hugo, quando escreveu o romance, tinha em mente uma França sofrida e esfacelada. Hoje, a tristeza abordada por ele, a violência contra a mulher, a exploração dos trabalhadores, são atualizadas pelo espetáculo. É uma leitura construída na percepção do que seria no nosso contexto", relata a diretora, tendo em vista as desigualdades sociais que permanecem latentes em nosso País.

Os Miseráveis, do Grupo Formosura, estreou no fim do ano passado e, além de proporcionar uma nova percepção sobre a história do escritor francês, traz aos palcos outro elemento bastante peculiar: a utilização de bonecos geminados. A principal característica desses bonecos é a fusão do corpo do ator com o corpo dos bonecos, construindo, assim, uma terceira imagem, que detém expressões e atitudes essencialmente humanas.

O aperfeiçoamento da técnica de manipulação dos bonecos geminados foi possível a partir da tutoria do goiano Duda Freitas, bailarino, coreógrafo e diretor de teatro, atualmente radicado na Holanda.

"O Porto (Iracema das Artes)trouxe o Duda pra gente trabalhar junto. Ele foi fundamental, porque é necessário que o ator esteja preparado e tenha uma certa flexibilidade para trabalhar com os movimentos dos bonecos", esclarece Graça, destacando a empatia necessária para distinguir todos os corpos presentes em cena.

Invisíveis

A fim de representar as mazelas vividas por uma maioria invisível, a obra do Grupo Formosura contará com a participação de três atores, enquanto os protagonistas do primeiro volume de "Os Miseráveis" serão retratados através de quatro bonecos, sendo eles Jean Valjean, o bispo, Fantine e a filha Cosette.

"O inspetor Javert, que persegue o Jean Valjean, é a representação da repressão. Nós resolvemos construir esse personagem através do preconceito e da discriminação. Ele estará presente nas ações", conta.

A encenação será acompanhada por música ao vivo, executada por um trio de violão e percussão, criada por Rami Freitas especialmente para a peça. O espetáculo faz parte da programação especial de aniversário do Theatro José de Alencar e será apresentado nesta sexta (17), às 19h30.

Antecedendo a apresentação, o palco do teatro receberá o cantor e compositor Pedro Frota, o pianista Thiago Almeida, uma breve participação dos alunos da Escola de Canto Maninha Motta e uma performance da bailarina e coreógrafa cearense Sílvia Moura.

Mais informações:

"Os Miseráveis: O Óleo da Máquina", apresentação hoje (17), às 19h30, no TJA. (Rua Liberato Barroso, 525, Centro). Grátis.

Contato: (85) 3101.2583

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