O pai da crônica

A arte nas crônicas de Rubem Braga

Um dos principais nomes da crônica, Rubem Braga escreveu sobre a arte os artistas. Contemplou, por meio de sua escrita, cearenses como Antonio Bandeira e Zé Tarcísio

00:00 · 12.09.2016 por Beatriz jucá - Repórter

De facetas não tão conhecidas do cronista brasileiro Rubem Braga, o leitor há de pinçar pequenos retratos da arte cearense - e também da vida de pintores consagrados numa época em que eles ainda eram pouco conhecidos. É que, apesar da extensa produção do escritor sobre arte para os jornais - especialmente nas décadas de 1950 e 1960 -, apenas uma pequena parcela havia sido, até então, publicada em livro.

Diante da riqueza dessa produção - na qual Rubem Braga desdobra a trajetória e o lado humano de artistas importantes com textos biográficos, se atém a algumas análises e críticas sobre obras ou mesmo revela o seu gosto pessoal e a sua sensibilidade artística -, a editora Autêntica incluiu um volume dedicado aos textos sobre artes plásticas na recém-lançada Caixa Rubem Braga.

Além da relação do escritor com o universo artístico, a publicação traz outras duas facetas do cronista do "cotidiano" que também não foram tão disseminadas ao público: música e política. O volume "Os moços cantam & outras crônicas sobre música", organizado por Carlos Didier, traz um extenso recorte da música brasileira - de Noel Rosa a Chico Buarque e Rita Lee. Já "Bilhete a um candidato & outras crônicas sobre política brasileira", organizado pelo pesquisador Bernardo Buarque de Hollanda, tem como um dos pontos altos a crônica sobre a morte de Getúlio Vargas, a quem Rubem Braga se opunha politicamente.

Artistas

As crônicas sobre o universo artístico, por sua vez, estão no volume "Os segredos todos de Djanira & outras crônicas sobre arte e artistas", organizado por André Seffrin. Segundo o pesquisador, o livro abarca uma "pequena parte" dos escritos de Braga sobre arte e artistas durante mais de 50 anos, tendo em vista que ainda há material suficiente para publicar outras antologias.

Durante as décadas de 1940 e 1950, Braga escreveu livremente sobre arte em jornais como Correio da Manhã, Folha da Tarde e Diário de Notícias. Já nos anos 1960, conquistou espaço na revista Visão, na qual publicou retratos de artistas com algumas interferências críticas - daí o cronista desvela mundos de artistas como Djanira e Volpi, por exemplo.

Historicamente fora do eixo Rio de Janeiro - São Paulo, o Ceará está presente nas crônicas que Braga dedicou ao campo artístico. A publicação da Autêntica inclui, por exemplo, uma pequena crítica ao artista José Tarcísio muito antes de consagrar-se profissionalmente, quando tinha apenas 37 anos. Em uma publicação de maio de 1979, Rubem Braga disse que "às vezes ele (José Tarcísio) acerta de maneira admirável. Outras vezes o quadro fica somatório de impressões e intenções. José Tarcísio andou, virou, mexeu e agora está pintando sua terra. Palmas para José Tarcísio, porque seguramente ele merece".

A publicação ainda traz um texto mais longo, dedicado a uma espécie de "biografia" do artista Antônio Bandeira. Publicada na Manchete, em 5 de dezembro de 1953, a narrativa desvela o momento em que se multiplicavam as encomendas ao cearense, bem como o desenvolvimento de sua arte.

A produção de Rubem Braga no campo artístico é alerta e descontraída. Sem a preocupação de fazer-se crítico clássico, evitava análises acadêmicas e apostava no lirismo sem deixar de emitir opinião crítica e arriscar análises. Nesse aspecto, Braga foi cronista e também observador crítico das contradições da arte brasileira dos anos 1940 ao fim da década de 1980. Acabou por tornou-se um "informal crítico de arte", como define o pesquisador André Seffrin.

Apreciador

De apreciador aparentemente distraído, Rubem Braga passou a escrever para revistas especializadas, livros de arte e catálogos de galerias. Também chegou a montar exposições e a conviver cada vez mais com artistas e críticos. "Rubem Braga tinha grande fascínio pelas artes, tem vários autorretratos que ele fez, ele gostava muito de se desenhar. E também de comprar obras mesmo sem ser um grande colecionador. Gostava de estudar e de conhecer novos pintores. O José Tarcísio tinha 37 anos quando apareceu nos textos de Rubem Braga", situa a jornalista e mestre em literatura Ana Karla Dubiela.

Tese

Ela se prepara para lançar, até o fim do ano, um livro sobre o cronista capixaba com um viés forte para a relação do escritor com as artes plásticas. A obra, intitulada "As cidades de Rubem Braga e Walter Benjamin - Flanando entre Rio, Cachoeira e Paris" é fruto da tese de mestrado da pesquisadora, escrita em 2011.

"O sexto capítulo do livro é somente sobre a faceta artística, o amor que ele tinha pelas artes plásticas. Esse viés é bastante forte, tanto que as divisória dos capítulos serão feitas pelo artista cearense Mário Sanders", conta Ana Karla. Ela explica que na crônica "O milagre da pintura", Braga já se revela um estudioso que entende realmente sobre o assunto. "Mas os textos dele sempre têm um lado biográfico, mais sensível, intuitivo e lírico. E embora se ressalte o lirismo, ele também tem uma crítica social forte", defende.

Muitos críticos atribuem que a Semana de Arte Moderna de 1922 influenciou a escrita de Rubem Braga, mas Ana Karla pondera que o escritor também foi um crítico ferrenho do Modernismo. "Ele dizia que era um estrangeirismo, que copiávamos algo de fora. Depois, na fase pós-simbolista, ele vira um modernista de última hora. A prosa foi incorporando elementos, e ele foi considerado um adepto do simbolismo pós-modernista".

Em 62 anos de atuação, Rubem Braga deixou cerca de 15 mil textos. Considerado o "pai da crônica", redefiniu o espaço do gênero em uma época em que pouco se valorizava esse tipo de texto do ponto de vista literário. Famoso por relatar o cotidiano com narrativas únicas, pela luta ecológica e mesmo pelas reportagens quando foi correspondente de guerra, o escritor tem lugar de destaque também na produção constante sobre arte, tema no qual foi autodidata.

No fim das contas, talvez a sua relação intensa com artistas tenha lhe rendido não apenas aprendizado técnico, mas lhe despertado o interesse em focar seus textos mais no aspecto humano do que propriamente em teorias de arte.

LIVRO

Caixa Rubem Braga

André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda, Carlos Didier (organização)
Editora Autêntica
2016, 736 páginas
R$ 134,90

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