ENSAIO

A arte não é a realidade, mas a sua representação

00:35 · 07.09.2013
O modernismo - uma das marcas do século passado - abriu caminhos novos para a arte

O século XX impõe ao homem uma série de descobertas e invenções oriundas do avanço científico e tecnológico. Desse modo, a máquina, a eletricidade, o automóvel, o avião, a velocidade com que tudo avança e como tudo se transforma determina uma mudança profunda na visão de mundo, implicando a busca de novas expressões artísticas: a renovação permanente é a marca dessa era.

Detalhe da capa do livro "Isso é arte?", de Will Conpertz. Nesta obra, o autor caminha por entre as mais desafiadoras composições dos artistas do Modernismo, mostrando suas singularidades, bem como o que dizem da própria arte

Os movimentos artísticos que se desenvolvem antes, durante e após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) são as vanguardas estéticas europeias. Questionando as formas tradicionais da estrutura das obras de arte, realizando a integração de várias manifestações artísticas (artes plásticas, literatura, arquitetura, música, cinema, dança...), as vanguardas (Futurismo; Dadaísmo; Expressionismo; Surrealismo), de tendências as mais das vezes antagônicas, traduzem o caos dos tempos modernos.

O Futurismo, fundado por Marinetti, canta a velocidade, a máquina, a tecnologia, o movimento, como síntese do mundo moderno. O Cubismo, a partir de Picasso, valoriza formas geométricas, as palavras em liberdade, como expressões de um mundo fragmentado. O Dadaísmo é anárquico e propõe a abolição da lógica, pregando a liberdade total da criação, eliminando o nexo com a realidade vital. O Expressionismo prega que a expressão, reflexo do mundo interior, deve ser obscura e ilógica. O Surrealismo valoriza o inconsciente, criando uma outra realidade.

O enredo

Neste livro, o editor de artes da BBC, Will Compertz, apresenta-se como se guiasse o leitor por um museu imaginário; nesse sentido, obras representativas da concepção modernista de arte vão se apresentando, estendendo uma ponte do pré-impressionismo até o pós-modernismo, implicando uma releitura de nossos conceitos sobre arte. O primeiro impacto vem de Duchamp, uma vez que este acreditava haver inventado uma nova forma de escultura: "uma em que o artista podia selecionar qualquer objeto produzido em massa sem nenhum mérito estético óbvio e, libertando-o de sua finalidade funcional - em outras palavras, tornando-o inútil -, dando-lhe um nome e mudando o contexto e o ângulo do qual seria visto normalmente, transformá-lo numa obra de arte de fato". A esta nova maneira de conceber o objeto artístico Duchamp chamou de readynade, ou seja, uma escultura já pronta.

Singularidades

Dos nenúfares de Monet aos girassóis de Van Gogh, compreende-se o intento das obras de artes em seu revolucionário discurso. Num estilo leve, em que o autor passa ao leitor a sensação de uma conversa de alpendre, a história dos movimentos artista vem fluindo, e surge daí um mundo mágico, sobremaneira envolvente: "Claude Monet viu na pintura de Manet um novo modo de representação. Pouco tempo depois ele começou a trabalhar (uma obra mais tarde abortada, talvez em razão de comentários desfavoráveis de Coubert quando este visitou seu ateliê e a viu em andamento) em seus próprio ´Almoço na relva´ (ele escolheu vestir completamente todos os participantes e eliminar as referências a Manet, mas também como um desafio competitivo". Tudo parecia uma desavergonhado realismo. Assim como "Olympia", de Manet, compreendida, então, como uma grosseira releitura de Ticiano, pois a figura, agora, era de uma prostituta.

Considerações finais

O autor, passeando pelas obras de arte, contextualiza a sua criação, dando relevo a fatores sociopolíticos, tecnológicos e artísticos, observando como deram origem aos movimentos artísticos, isto é, às vanguardas estéticas europeias: "Repleto de episódios reveladores, que nos levam a passar uma manhã num café com Monet e os impressionistas"; quando não, nós podemos contemplar o cachimbo de Magritte, com os olhos presos ao aviso de que esse cachimbo não é um cachimbo. Com isso, deparamos a mensagem de que um quadro pode parecer simplista, sem sê-lo.

LIVRO

Isso é Arte?
Will Gompertz
ZAHAR
2013, 464 Páginas
R$ 59,90

CARLOS AUGUSTO VIANA
EDITOR

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