Música

A arte de ser o mesmo

Franz Ferdinand brinca de se renovar em novo disco. Mudanças à parte, o álbum mantém a identidade da banda

O (agora) quinteto Franz Ferdinand: banda dá mais pesos a elementos eletrônicos em novo disco
00:00 · 15.02.2018 por Dellano Rios - Editor de área

Alex Kapranos, 45 anos, tem seguido um roteiro padrão para falar de "Always Ascending", quinto trabalho de estúdio de sua banda, o Franz Ferdinand. É o clichê de sempre, usado no mundo do rock quando alguém que já tem tempo de estrada procura descrever o disco que está lançando.

Levantando a bola do álbum que saiu na sexta-feira, 9, o cantor e guitarrista escocês ligou o processo de criação de "Always Ascending" à saída de um dos membros originais da banda. "Tenho a impressão de que chegamos ao fim de um capítulo. Encontramos aí uma oportunidade de fazer algo novo, de criar uma nova identidade para a nova década".

Na primeira parte do discurso, é fácil de acreditar. Nick McCarthy, 43, tocava guitarra e teclado no Franz Ferdinand, como Kapranos; fazia vocais de apoio para a banda; e ainda era parceiro de composição do cantor. O álbum de estreia do quarteto, "Franz Ferdinand" (2004), é quase todo assinado pela dupla Kapranos-McCarthy; assim como o quarto da discografia, "Right Thoughts, Right Words, Right Action" (2013). A saída do músico - para passar mais tempo com a família e priorizar outros projetos, até então paralelos - certamente impactou na forma do FF produzir suas canções.

Mas é um clichê inconsistente a parte que fala de uma "nova identidade para a nova década" (difícil entender essa contagem de tempo, já que um "ciclo" durou 15 anos e a década de 2010 já vai chegando ao fim...). A sorte é que se trata de avaliação errada, para o bem da banda, dos fãs e do novo disco.

"Always Ascending" traz sim novidades nada acidentais. Primeiro, o FF agora é um quinteto. Nick McCarthy foi substituído, para os trabalhos em estúdio, por Julian Corrie. Ele só foi efetivado após o disco ser finalizado. Entrou para a banda, também, Dino Bardot (guitarrista do finado trio indie 1990s), que não gravou nada, mas vai excursionar com o FF.

Corrie toca guitarra, mas sua pegada são mais as programações, teclados e outros trecos eletrônicos. Ele gravava sob o pseudônimo Miaoux Miaoux, numa linha mais synth pop/ disco. Difícil dizer se o novato deu ao FF seu novo lado eletrônico ou se ele foi recrutado com esse fim. E essa é a novidade do álbum, que flerta com a disco music (mais à Daft Punk de "Get Lucky" do que aos artistas originais desta cena) e com o synth pop oitentista.

Mas o FF não se descaracteriza - e esse é o trunfo do grupo e do álbum. A identidade da banda continua intacta e, por mais que você ouça sons e instrumentos que não haviam aparecido em seus álbuns anteriores, escuta qualquer uma destas 10 novas canções e não tem dúvidas: é o "velho" Frans Ferdinand. E em boa forma.

O FF não cometeu o erro de outros grupos de rock que mergulham na eletrônica e ficam parecendo um tiozão deslocado na festa da molecada. A banda trouxe para sua música elementos que estavam próximos de outras de suas referências, com o pós-punk e a new wave oitentistas. Destacam-se "Lazy Boy", "Glimpse of love" e faixa-título, versões mais festeiras do velho FF; "Finally", com algo de black music que a faz destoar das demais canções para as pistas do disco; e, sobretudo, a balada "The Academy Awards", estranhíssima, sombria e grudenta.

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