Ensaio

A antologia poética de Vinícius de Moraes

00:49 · 20.07.2013
Antologia é uma coleção de textos selecionados de forma que melhor representem a obra de um autor, ou um tema comum a vários autores ou a uma época

Publicado em 1954 pela editora "A noite", no Estado do Rio de Janeiro, O livro "Antologia poética", de Vinicius de Moraes, reúne a maior e a melhor parte da obra de um dos grandes poetas do Brasil. Tem como constante um lirismo de grande força, no qual se destacam, entre tantos, poemas como "Soneto do amor maior": (Texto I)

O poeta, compositor e diplomata Vinícius de Moraes não só aproximou a poesia do grande público como recuperou a forma soneto, então desprezada pelos modernistas

O termo "amor maior" não é aquele que se satisfaz ao fim da conquista da amada. Há um toque de paixão, de conquista e de contraste por parte desse amor, no qual as formas opositoras se harmonizam dentro do poema, dando um efeito semelhante ao usado pelos barrocos com o uso de antíteses( alegre - triste ; descontente - risada). Ao ritmo do soneto, o autor dá um realce ao prazer que não fica restrito aos sentidos, tampouco à beleza física, mas, o compartilhamento com a amada da sua própria inquietação.

Recursos expressivos

A primeira e segunda estrofes têm um esquema de rima: ABAB; nos tercetos, os dois primeiros versos de cada um rimam entre si. Os últimos versos de cada terceto apresentam uma rima em eco. As rimas pobres e rimas ricas se alternam dentro do poema . Todas as rimas encontradas são consoantes, ou seja, têm harmonia completa no som. Nos quartetos, elas ocorrem de forma cruzada; nos tercetos, de forma emparelhada. Os versos utilizados são , na maioria, decassílabos com impulsos rítmicos que sofrem variações. As sílabas tônicas que encontramos na primeira estrofe são as seguintes: 1-Maior amor nem mais estranho existe (4 - 8 - 10); 2-Que o meu, que não sossega a coisa amada (2 - 6 - 10); 3- E quando a sente alegre, fica triste (4 - 6 - 10); 4- E se a vê descontente, dá risada. ( 3 - 6 - 10). Nos versos 3, 4 e 5, observa-se a ocorrência da anáfora, uma vez que a conjunção e aparece no início de cada um deles, sendo retomada na metade do sexto verso e no início do décimo. Existe o uso de aliterações, nos versos 9, 10, 11 e 12. A anáfora e a aliteração, somadas ao recurso da rima, contribuem para evidenciar a sonoridade deste poema.

Leitura do poema

O soneto tem sua voz centrada no discurso do eu lírico que exprime seus sentimentos em tempo imediato, como se observa em dá risada, toca, fere, prefere, etc. Na primeira estrofe, temos uma combinação de contrastes : sente alegre e fica triste; vê descontente e dá risada. Esse embate entre alegria-tristeza venha destacar a afirmação feita pelo poeta nos dois primeiros versos, de que não existe amor maior e nem mais estranho do que o seu. Na segunda estrofe, a expectativa é feita entre eterna aventura e uma vida sem um rumo certo. A repetição da conjunção "e" nos versos 3, 4 e 5 fortalece o caráter contraditório do sentimento descrito pelo poeta: um amor diferente, que sente tristeza ao ver a "coisa amada" alegre, ri se a vê descontente e fica em paz se resiste ao amado coração. São atitudes que refletem às mudanças inesperadas em relação ao amor, que em geral causa o oposto do que foi descrito pelo poeta: se uma das partes está descontente, a outra também o está; e assim também para a alegria; e não há resistência, pois o amor é "entrega", "rendição".

Daí o conceito de um amor de certo modo "egoísta", que prefere aventurar-se, viver sem um rumo certo, ser "fiel à sua lei de cada instante" a murchar, mesmo que para isso seja necessário ferir, como está explícito na sequência de aliterações que se inicia no verso 9 e finda no verso 12. O último verso resgata tudo o que foi dito antes, quando diz "numa paixão de tudo e de si mesmo", notamos mais uma vez, o caráter egoísta do sentimento do poeta. Todos os aspectos que foram mencionados, tanto os materiais quanto os expressivos, são típicos da lírica. A forma em que o poeta se expressa, a sonoridade, a conjugação dos verbos, o sentido que os verbos assumem: tudo dirigindo o poema a uma forma elaborada e inusitada de descrever o amor.

A sensação da perda

No poema "Soneto de separação" encontraremos o sentimento de perda da pessoa amada que transforma a vida do poeta em um momento marcante de dor. A separação que torna o modo diferente de ver as coisas que antes estavam no lugar, tornando o poeta sensível às mudanças bruscas causadas pelo desencontro com a amada. O instante psicológico em que o poeta percebe a desordem causada pela separação o leva a uma análise da dor retratada nos desarranjos que transformaram o belo em melancolia:. (Texto II)

Vinícius de Moraes escreveu o poema "Soneto de separação" adaptando-o a uma forma fixa e regular. É um poema decassílabo heroico, com acentuação forte na sexta e na décima silabas em cada verso. É rimado, nos quartetos as rimas são interpoladas (ABBA) e alternadas (CDCD), enquanto que nos tercetos são misturadas (EFE) e (FFE).

Possui rimas pobres com os substantivos, pranto / espanto; bruma / espuma; vento / pressentimento; chama / drama; e rimas ricas com: de repente (locução adverbial) / contente (adjetivo) e amante (adjetivo) / distante (advérbio) / errante (adjetivo); também possui rima interna como pressentimento / momento. A reiteração da conjunção "e" que é usada nos versos 3, 4 , 7 , 8 e 11 que enfatizam as mudanças observadas pelo "Eu lírico".O soneto tem como temática a separação, que leva o poeta a ver seu mundo se desarmonizar com a separação da amada.

FIQUE POR DENTRO

Um breve retrato do artista e de sua obra

Vinícius de Moraes (RJ, 1913; RJ, 1980) em sua poética distingue duas fases: a princípio, de tendência simbolista, seu poema assume um tom metafísico ao travar um conflito entre os desejos do espírito e os da carne; mas reduz o confronto do dualismo homem versus Deus à coexistência paralela das duas partes, convivendo, assim, com a culpa, uma vez que preserva a fé em Deus como uma verdade interior, sem remorso ou arrependimentos, tudo através de uma linguagem nebulosa, hermética; num segundo momento, aproxima-se do cotidiano, desenvolve temáticas de natureza social e política e, principalmente, canta o amor erotizado, num lirismo de exaltação da mulher como figuração plástico-sensual, em sua irresistível sedução.

Trechos

TEXTO I

Maior amor nem mais estranho existe / Que o meu, que não sossega a coisa amada / E quando a sente alegre, fica triste / E se a vê descontente, dá risada. / / / E que só fica em paz se lhe resiste / O amado coração, e que se agrada / Mais da eterna aventura em que persiste / Que de uma vida mal-aventurada. / / / Louco amor meu, que quando toca, fere / E quando fere vibra, mas prefere / Ferir a fenecer - e vive a esmo / / / Fiel à sua lei de cada instante / Desassombrado, doido, delirante / Numa paixão de tudo e de si mesmo.

TEXTO II

De repente do riso fez-se o pranto / Silencioso e branco como a bruma / E das bocas unidas fez-se a espuma / E das mãos espalmadas fez-se o espanto. / / / De repente da calma fez-se o vento / Que dos olhos desfez a última chama / E da paixão fez-se o pressentimento / E do momento imóvel fez-se o drama./ / / De repente, não mais que de repente / Fez-se de triste o que se fez amante / E de sozinho o que se fez contente. / / / Fez-se do amigo próximo o distante / Fez-se da vida uma aventura errante / De repente, não mais que de repente.

FRANCISCO IVANÊ FERNANDES
COLABORADOR

*Do Curso de Letras da Uece

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