ARTE

A ameaça da invisibilidade

02:10 · 26.06.2011
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Fora de cena por anos, a “Femme Bateau”, exposta nas longarinas da Ponte Metálica, voltou recentemente a seu lugar, após restauro feito a partir de programa do Estado
Fora de cena por anos, a “Femme Bateau”, exposta nas longarinas da Ponte Metálica, voltou recentemente a seu lugar, após restauro feito a partir de programa do Estado ( FOTO: FRANCISCO VIANA )
Obra de Sérvulo Esmeraldo na Beira-Mar, mantida pela Cagece: alvo constante de pichadores
Obra de Sérvulo Esmeraldo na Beira-Mar, mantida pela Cagece: alvo constante de pichadores ( )
O artista diante da escultura localizada em uma das entradas do Campus do Pici, da UFC, antes da instalação de paradas de ônibus
O artista diante da escultura localizada em uma das entradas do Campus do Pici, da UFC, antes da instalação de paradas de ônibus ( )
Homenageado com uma mostra retrospectiva de sua obra pela Pinacoteca de São Paulo, o artista visual cearense Sérvulo Esmeraldo tem mais de 30 obras espalhadas por Fortaleza, grande parte delas sem sinalização adequada e outras degradadas pela falta de conservação. Sérvulo Esmeraldo é, há décadas, um dos principais nomes das artes plásticas no Ceará. Criador plural, que não se prende a fórmulas, técnicas ou materiais. Hoje, o Caderno 3 passeia por esta descuidada galeria a céu aberto, repleta de obras-primas que são, também, marcos visuais de Fortaleza

Espalhadas por Fortaleza, as esculturas de Sérvulo Esmeraldo assumem dimensões monumentais, integrando a arquitetura de espaços públicos e construções privadas. São fontes, peças metálicas, painéis e relevos que compõem a paisagem urbana e rompem com as formas corriqueiras e utilitárias da Capital cearense.

As "esculturas públicas" são um capítulo à parte na produção do artista, destacadas no livro "Servulo Esmeraldo", organizado pela crítica de arte Aracy Amaral. Em um dos artigos do livro, João Rodolfo Stroeter classifica Sérvulo como "um arquiteto de formas funcionalmente ´inúteis´, porém ricas de significados". O livro é parte da homenagem da Pinacoteca de São Paulo ao artista cearense, lançado no último dia 18, durante a abertura da mostra retrospectiva de sua produção que segue em cartaz até 14 de agosto.

Em Fortaleza, entregue às mãos de seus mantenedores, público ou privados, muitas das obras-monumentos encontra-se, entretanto, quase que invisíveis, ocultadas pela degradação, falta de sinalização, por intervenções no entorno, ou mesmo desaparecidas, retiradas de seus locais de origem.

Má conservação

Quem reclama dos maus tratos despendidos à obras é a curadora, crítica de arte e esposa de Sérvulo, Dodora Guimarães. Recentemente, ela fez um levantamento da situação de todas as obras do artista em Fortaleza. "Ele é valorizado no seu Estado, haja visto o número de obras que ele tem em Fortaleza. Mas a Cidade e as instituições são responsáveis pelo seu patrimônio. É uma pena (a falta de atenção com as obras). Sérvulo fica triste em ver o estado de conservação", lamenta.

Ela cita a escultura que fica na entrada do Campus do Pici, da Universidade Federal do Ceará, como exemplo da falta de respeito. Defronte a ela foram colocadas várias paradas de ônibus que impossibilitam que seja vista pelos passantes. "Isso é um crime, porque aquela é uma escultura cinética, que se modifica virtualmente, vai se transformando (a medida que o observador se movimenta). Essa colocação de abrigos tira esse interesse", argumenta. A Universidade Federal do Ceará, por outro lado, argumenta que a situação foi decorrência do túnel construído próximo ao local, na Avenida Engenheiro Humberto Monte, pelo Programa de Transporte Urbano de Fortaleza (Transfor), que obrigou a uma redução na praça onde a escultura está instalada. A UFC anunciou ainda que, em breve, o local será novamente reformado, não sabendo informar se como ficará exposta a obra.

Beira-Mar

Outras que servem de mau exemplo dessa falta de preocupação com a arte de Sérvulo Esmeraldo na Cidade são duas obras instaladas no calçadão da Av. Beira-Mar. "A escultura em homenagem aos jangadeiros (próxima ao mercado dos peixes do Mucuripe) está num estado de abandono total. Também o Monumento ao Saneamento Básico, na praia do Náutico, é um marco (entre as obras do artista) e está sempre mal conservado", reclama Dodora.

A escultura da Praia do Náutico é uma vítima constante de pichadores. Vandalismo que assola obras e monumentos públicos da Capital - e que faz lembrar que a conservação do patrimônio não passa sem a consciência histórica e cultural e o envolvimento de sua população.

A Prefeitura de Fortaleza, que é responsável apenas pela homenagem aos jangadeiros, informou que a escultura passará por restauro no Plano de Reordenamento da Beira Mar, cujas obras serão iniciadas no segundo semestre deste ano e serão executadas pela Secretaria de Turismo de Fortaleza (Setfor). A intervenção também prevê o deslocamento da estátua por 50 metros a oeste no passeio. Para evitar que ela venha a se deteriorar novamente, a PMF informa ainda que quando as obras forem concluídas, a manutenção desta e de outras esculturas da orla da Beira Mar será definida por meio do Plano de Gestão da Orla, que será desenvolvido após as intervenções.

O Monumento ao Saneamento Básico é de responsabilidade da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece). Por meio de sua assessoria de imprensa, a empresa afirmou que os reparos na obra integram seu cronograma normal de serviços. Não há revisões periódicas e as intervenções são feitas quando a administração toma conhecimento de danos feitos à obra.
Fique por dentro Sérvulo Esmeraldo

Nascido no Crato, em 1929, Sérvulo Esmeraldo é escultor, gravador, ilustrador e pintor. Começou pela gravura, mas ampliou seu leque de técnicas quando, a partir de 1947, em Fortaleza, passou a frequentar a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP). No período, tomou aulas de pintura com Jean-Pierre Chabloz (1910 - 1984). Em 1951 trabalha na montagem da 1ª Bienal Internacional de São Paulo. Passou uma temporada na França e retorna ao Brasil apenas 1978, quando se fixou em Fortaleza e dedicou-se à arte pública.

FÁBIO MARQUES
ESPECIAL PARA O CADERNO 3

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