Ensaio

A adaptação em cada época de Bravura Indômita

01:54 · 27.04.2013
No princípio, as histórias eram contadas oralmente, passadas de geração a geração; depois de milhares de anos, elas são anotadas em objetos que passariam a ser conhecidos, futuramente, como livros

Estes seriam a base para criação de novas mídias de entretenimento, que evoluiriam para a sétima arte, cinema, e a nona arte, quadrinhos. Nisso tudo se observa que uma mesma história iria se modificando ao longo do tempo, modificando-se e transformando-se em novas versões, mas mantendo a fidelidade ou alterando sua essência com base no original.

Um exemplo mais notório desse fenômeno são as Fábulas europeias, que de início tinham um forte teor de violência e de sexo, mas teve seu conteúdo alterado pelos irmãos Grimm, que suavizam essas temáticas. Isso só ocorre devido à criação do conceito de infância, que era inexistente na antiguidade, surgindo apenas na modernidade, mostrando nisso como a época cultural de um tempo tem uma forte influência sobre a produção de uma obra.

A natureza da linguagem

A história em seu aspecto multimídia fica propensa a se modificar de várias formas. A convergência cultural faz alterações e cria novas versões que enriquecem o enredo nesse diálogo entre mídias. O cinema e a literatura têm linguagens diferentes para se expressar. As obras cinematográficas têm as variáveis de cena, de som, de atuação e de fotografia que moldam toda a estrutura narrativa em diferentes formas, dando-lhe um tom sombrio, realístico, romântico e outras incontáveis variáveis que são particulares para cada diretor. Isso difere do livro, já que é uma obra subjetiva para cada leitor que dá diferentes tonalidades para a história sem escapar da ideia central do autor, que se permite se reinventar dentro da linguagem narrativa. A obra que analisarei tem sua história proveniente do meio literário, que ganha duas adaptações de épocas diferentes, uma de 1969 e outra em 2010. O livro de Charles Portis fez parte da geração dos anos 60 do New Journalim de Tom Wolf.

Recursos expressivos

A narrativa do livro é bastante informal, cômica e objetiva, como uma pessoa contando uma história para outra, tendo uma relação direta entre a narradora e o leitor. A personagem deixa transparecer muitas vezes a sua opinião sobre o mundo e diversas temáticas e sua sagacidade para negociar, mesmo sendo tão nova.

O autor demonstra, por meio de Mattie Ross, a dura situação das pessoas no velho oeste americano, um lugar brutal de pouca piedade no qual as pessoas aprendem, desde cedo, a se defender para sobreviver. Irei demonstrar como essa visão na obra original pode ser modificada pelas adaptações e como isso pode modificar a essência ao mexer em cenas chaves ou partes de sua estrutura. A transposição para o cinema de uma obra literária é um desafio se o diretor quiser manter fiel ao original na sua ideia, demonstrando que adaptação não se resume ao fato de apenas reproduzir as cenas do livro.

A primeira versão

No ano seguinte da publicação do livro, Henry Hathaway faz uma adaptação cinematográfica que dá o primeiro e único Oscar para John Wayne de melhor ator pela sua interpretação do comissário Rooster Cogburn. O filme segue a linha tradicional de faroestes da época, perdendo muitas características da obra original e alterando a essência de sua história e do seu teor ao modificar as características importantes do livro criando uma história diferente.

A abertura já é a primeira modificação que destoa da sobriedade do livro, dando-lhe um tom de uma aventura divertida e bem colorida. O diretor reproduz as cenas do livro, mas mata a sua natureza por eliminar a narradora-personagem Mattie Ross e infantilizar a personagem e tirando o foco da história em cima dela, usando-a apenas como fio condutor da trama. Não há cenas sugestivas, o diretor conduz o filme de maneira bem clara, detalhando cenas e prolongando certos pontos desnecessários para a condução da história, como mostrar a cena da morte do pai de Mattie ou sua prolongada demora na cidade. Outro ponto interessante é como o diretor utiliza da artimanha de usar personagens secundários para reproduzir as falas da narradora-personagem do original, informando o espectador sobre quem são as pessoas ou situando sobre o que está acontecendo.

Um relevo

O personagem de John Wayne, Rooster Cogburn, ganha destaque principal. Apresentado como um homem implacável que não poupa a vida de nenhum bandido, demonstrando a sua imponência ao colocar a cena em que traz vários prisioneiros perigosos. Na cena do julgamento, Wayne dá um tom jocoso para cena, não traz um ar pesado para a sua descrição de como abateu o irmão e o pai da família Wharton, que no livro dá uma forte impressão dele matar sem nenhum arrependimento, contando quantas pessoas matou de maneira displicente. As suas bebedeiras são repreendidas pelos demais personagens, mas é posto pelo diretor como um pistoleiro destemido e beberrão que acaba com todos os bandidos e salvando a vida da garota.

O Texas ranger Leboeuf serve como galante alívio cômico, sempre falhando nas tentativas infrutíferas em capturar Tom Chaney, a sua participação serve de contraponto com Cogburn. A garota Mattie Ross é quem sofre as mais fortes modificações, o diretor elimina o seu comportamento de maturidade precoce para ser apenas uma garotinha esperta que procura justiça para o assassinato, ela fica como a garotinha que necessita ser salva. A violência neste filme é bastante moderada devido a sua época conservadora que estava tendo os seus valores questionados pelos movimentos de 1968, a platéia não iria aceitar cenas como o pé de Ned Pepper Sortudo sobre a garganta de Mattie, por essa ser uma criança. Outros pontos são a retratação de alguns personagens que fazem oposição aos principais. O vendedor com quem Mattie negocia e o defensor que interroga Cogburn são encenados de forma exagerada, dando-lhes um ar de antipatia para dar um tom maniqueísta para a trama. A maior parte do filme se passa no dia, só há apenas uma cena de noite no qual o trio fica de prontidão para emboscar os bandidos.

O filme reproduz cenas do livro que na sua execução não causaram tanto impacto, como a corrida de Cogburn para salvar a vida de Mattie, mas para época parecia bastante impressionante. O diretor suprime as cenas que mostram o interesse amoroso dos personagens, como as cenas da primeira conversa de Leboeuf com Mattie na cama dizendo que a beijaria se não fosse tão petulante. O final alterado é o ponto que transforma a história do livro em outra, pois aqui Leboeuf morre e Mattie não perde o braço e reencontra Rooster, dando-lhes uma relação de pai e filha. Isso foge ao livro, muda a sua natureza realística para o romanceado, no qual demonstra toda a história como uma simples aventura de uma garotinha que encontra um cavaleiro que lhe faça justiça e escondendo o fato dela está apaixonada por ele depois que cresce.

FIQUE POR DENTRO

Elementos que ganham relevo na narrativa

Bravura Indômita é uma história de vingança, que é narrado pela personagem Mattie Ross, uma garota de 14 anos bastante madura, presbiteriana e religiosa, recitando de vez em quando a Bíblia para descrever determinadas situações. A história tem início com a morte de seu pai nas mãos de um empregado da família, Tom Chaney. A partir neste ponto, ela descreve toda a sua saga de conseguir justiça, custe o que custar, contratando o federal mais implacável, Rooster Cogburn, para perseguir Tom Chaney na reserva indígena, se juntando a um Texas ranger, Laboeuf que perseguia esse criminoso há muito tempo.

ANTÔNIO LUCIANO BONFIM NETO
COLABORADOR

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