CARREIRA

40 anos em série

Guilherme Arantes lança novo DVD, em que narra a trajetória de quatro décadas de carreira e reinterpreta sua obra

00:00 · 12.06.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

Os 40 anos de carreira de Guilherme Arantes têm sido comemorados desde 2016. Naquele ano, a gravadora Sony Music lançou uma caixa com 22 CDs do cantor e compositor paulistano. O projeto veio para organizar, em sequência, uma discografia de trajetória bem oscilante (entre 1976 a 2016): Guilherme passou pelas gravadoras Som Livre, Warner, CBS, EMI Odeon, Polygram, dentre outras, antes de se tornar independente. Há 17 anos, lançou seu próprio selo, o Coaxo do Sapo.

Agora, via Coaxo, ele lança uma série de três DVDs, narrando a história de sua carreira. Para agregar valor aos depoimentos (a maioria dele mesmo, ao lado de contribuições de parceiros como Cláudio Lucci, do grupo Moto Perpétuo), Guilherme Arantes gravou clipes ao vivo, reinterpretando parte de seu cancioneiro. O material foi registrado em seu estúdio, em Camaçari (BA).

Com a série - de sete temporadas, divididas em três discos, cada uma retratando um período da história do artista - Guilherme conta que a intenção foi construir uma autobiografia. A diferença para uma biografia convencional, ele mesmo frisa, é a ausência do foco em escândalos e "peripécias" pessoais.

No vídeo, Arantes centra a fala no processo que permeia cada canção significativa de sua obra. "O aspecto pessoal referencia as biografias. E vejo que as minhas peripécias são proverbiais. Sou um cara muito comportado, mesmo dentro daquela loucura dos anos 80, que minha geração passou. Ajudei a criar meus filhos. As vidas artísticas são movidas pelo escândalo, por uma tradição. A fama impõe isso", reflete o compositor, em entrevista por telefone.

Guilherme observa como seus casos amorosos foram citados, ao longo do tempo, por exemplo, com respeito em entrevistas e nas demais notas da imprensa. "Sou um cara muito familiar. Então achei que a minha história fosse bem profunda no aspecto musical. Com 65 anos, me enxergo com a densidade de quem trabalhou (nas canções) as harmonias, as introduções, orquestrações, submelodias, produções", situa.

Começo

Ele recorda que, de início, seu pai foi contra sua carreira artística. Mas, em casa, Guilherme Arantes teve referência de compositores importantes como Baden Powell e seguiu, por inspiração e afinidade pessoal, a escola criativa de nomes como Tom Jobim (outra referência de composição ao piano, na MPB) e Milton Nascimento.

Embora tenha lançado hits, Guilherme frisa que é um artista da "artesania da música. Todos que me influenciaram me ensinaram que a música é uma construção completa. Sempre busquei a permanência: algo mais precioso do que o 'sucesso'", questiona.

Indagado se sempre teve um pensamento crítico em relação à ideia de "sucesso' na vida e nas artes, Guilherme Arantes responde que essa compreensão foi gradual. Cita o exemplo da grande indústria musical dos anos 80 e de como fazer parte daquela engrenagem era, também, seu modo de sobreviver.

"Isso foi amadurecendo com o tempo. No começo, a gente vivia num mercado selvagem, na tentativa de vender muitos discos. E eu nunca fui um bom vendedor (para a expectativa das gravadoras), como Lulu Santos, Marina Lima, Lobão. Hoje as coisas são diferentes, você vai se burilando por si mesmo, faz autoprodução, cada um dentro de suas possibilidades".

Piano

Compositor especializado em piano, Guilherme conta como se apegou ao instrumento e que a sofisticação dos teclados dificultou o processo de se tornar ainda mais conhecido.

O artista reforça nomes como Taiguara, Flávio Venturini e o próprio Ivan Lins - todos pianistas - que enfrentaram o mesmo desafio.

Arantes lembra que programas de televisão, como o Cassino do Chacrinha (1982-1988), faziam os "playbacks" sem piano". E me desagrada um pouco olhar para isso, hoje. O piano é conhecido, mas não é tão popular quanto o violão no Brasil. Impõe sempre uma respeitabilidade, uma coisa mais doutoral. (Mas) isso afasta um pouco as possibilidades", reconhece ele.

Capítulos

Para dividir os três DVDs em sete temporadas, o músico pensou em como alcançar o público habituado a consumir séries e outros conteúdos em formatos similares pela internet.

O compositor situa que o formato extenso comporta um maior número de músicas e se diferencia do espaço habitual de um único CD, voltado a 14 faixas, no máximo.

Guilherme percebe, ainda, que o DVD procura registrar o processo histórico sobre a criação de canções muito conhecidas, como "Meu mundo e nada mais", "Amanhã" e "Um dia, um adeus". Ele destaca o papel da indústria fonográfica em revelar os hits, mas a história, para Arantes, hoje interessa também ao público, que "adora essa completude, de saber como o cara fez (a canção)".

"O que eu fiz foi tirar proveito dessas novas mídias, tendo o estúdio com vários pianos: de pé, de cauda, elétrico, eletroacústico, órgãos. Meu acervo não pertence à Sony, nem à Globo, nem às grandes corporações. Os grandes beneficiários da minha obra vão ser meus filhos e netos", observa o compositor.

DVD

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.