Artrite reumatóide

Novas terapias ajudam a manter a AR sob controle, a exemplo do diabetes e hipertensão


Levantar-se, andar, comer e se vestir sozinho... ações simples para a maioria, mas extremamente dolorosas para cerca de 1% da população mundial, que sofre de artrite reumatóide (AR). A erosão óssea nas juntas causa dores, rigidez, inchaços e deformidades. Junto, vêm outras conseqüências, tais como fadiga crônica, distúrbios do sono e até mesmo depressão. Apesar de ainda não haver cura para a doença, que atinge mais de 1 milhão de brasileiros, algumas descobertas representam a esperança de uma melhora considerável da qualidade de vida dos pacientes.

Uma nova geração de medicamentos biológicos está chegando ao mercado e promete grande salto no tratamento da AR, indo além da melhora dos sintomas e sendo uma alternativa a quem não responde ao tratamento tradicional. São os chamados moduladores da co-estimulação, que atuam sobre a célula T, responsável pelo desencadeamento do processo inflamatório na membrana sinovial (uma espécie de capa que envolve as articulações), que causa a erosão óssea. Ou seja, eles agem em um estágio mais precoce do que os tratamentos convencionais, baseados no uso de analgésicos, antiinflamatórios não-esteróides (NSAIDs) e glucocorticóides.

A terapia da AR já havia passado por uma revolução em 1999, com o surgimento dos primeiros agentes biológicos, conhecidos como ´anti-TNFs´ - mas que não atendiam satisfatoriamente até 50% dos pacientes. O maior diferencial das novas drogas é que elas agem sobre a célula T sem, no entanto, bloqueá-la e têm um maior percentual de respostas.

Pesquisas e estudos recentes apresentados no Congresso Anual do Colégio Norte-Americano de Reumatologia, em Boston (EUA), no início de novembro, mostraram que o abatacept, proteína de fusão que inaugura essa nova classe de moduladores da co-estimulação, atua apenas na segunda etapa de ativação da célula.

Isso significa que as demais funções da célula T, importantes para o organismo, não são alteradas. Até então, os especialistas contavam apenas com terapias à base de medicamentos que buscam controlar a progressão da doença. Essas drogas, porém, bloqueiam substâncias como o TNF (fator de necrose tumoral) e a célula B – que são ´mensageiras´ do processo inflamatório das doenças auto-imunes, mas que fazem parte do funcionamento do sistema imunológico humano. Em linhas gerais, essa nova geração de biológicos consegue ´driblar´ o sistema imunológico do paciente.

Na avaliação do médico Walber Vieira, chefe do serviço de Reumatologia do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), ´esses medicamentos são uma luz no fim do túnel, pois abrem uma nova perspectiva em relação ao tratamento da artrite reumatóide e de outras doenças auto-imunes´. Há estudos em andamento para a indicação desses biológicos para outras desordens do sistema imunológico, como o lúpus e a nefrite lúpica, psoríase, artrite idiopática juvenil e doenças inflamatórias intestinais (doença de Crohn e colite ulcerativa).

Fármacos

Dois medicamentos desse tipo já foram aprovados pelo Food and Drug Administration (FDA), nos EUA, e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária(Anvisa), no Brasil: o rituximab e o abatacept. Enquanto o abatacept interfere no mecanismo de resposta da célula T, o rituximab age contra o antígeno CD20 que é encontrado em certas células e reduz a apuração de CD20. Há ainda um terceiro fármaco em fase de testes: o tocilizumab, que tem como alvo a inibição da interleucina-6 (IL-6).

Embora por mecanismos diferentes, pesquisas da Faculdade de Medicina de Viena, realizadas no ano passado, apontam que os três fármacos diminuem os sintomas da AR e melhoram as funções físicas e a condição de saúde do paciente, ao mesmo tempo em que retardam a progressão dos danos nas articulações. ´É essa destruição das juntas que queremos evitar. Quanto mais cedo controlarmos o problema, mais eficiente será o tratamento, pois as perdas são maiores no começo da doença´, conta o médico Sebastião Radominski, reumatologista e professor da Universidade Federal do Paraná. Segundo ele, cerca de 70% das erosões aparecem nos dois primeiros anos.

Dependência

A classe médica conta com as descobertas da ciência para pôr fim ao mito de que, ao se deparar com alguma doença crônica e progressiva, não resta esperança. Com as novas terapias, a intenção é que o paciente não se entregue e conviva com a AR sob controle, semelhante ao que acontece com quem tem diabetes ou hipertensão. ´Ninguém sabe que uma pessoa tem diabetes se ela não disser. É isso que procuramos no tratamento da AR. Agindo no início da progressão da inflamação, evitaremos as deformações e dores que causam a incapacidade´, acrescenta Sebastião Radominski.

Segundo a pesquisadora Tracy Li, a maior queixa das pessoas que sofrem com a AR é justamente essa: ´Tornar-se dependente é um dos maiores medos dos adultos com a idade, o que muitas vezes acontece com a AR´. A doença compromete a qualidade de vida e a execução de atividades do cotidiano, sendo necessária a ajuda permanente de membros da família ou de outras pessoas. De acordo com as estimativas, até 37% dos pacientes ficam incapazes em um período de dois anos da doença. Em 10 anos, esse índice aumenta para 50%.

Hoje, a AR é a maior causa de incapacidade nos EUA e calcula-se que a doença custe para a economia do país cerca de US$ 86 bilhões/ano, considerando custos médicos diretos e indiretos. No Brasil, ainda não há dados conclusivos sobre o assunto. ´A Sociedade Brasileira de Reumatologia vem tentando fazer esse levantamento, mas o país é muito grande e o controle da saúde pública é muito diferente de outros países´, diz Radominski.

Qualidade de vida está em jogo


Se é difícil colocar na ponta do lápis os custos indiretos com a perda de empregos, gastos de previdência e saúde pública e prejuízos para a produtividade da nação, o que dizer do custo intangível, as conseqüências para a vida do paciente? Para os médicos ouvidos pelo Diário do Nordeste, este é o principal benefício dos novos medicamentos biológicos para os portadores de doenças degenerativas. Como agem no início do processo inflamatório, é possível ter uma vida normal. ´O objetivo não é apenas aliviar a dor e outros sintomas, é a independência, é ter liberdade de movimentos´, diz Fernando Cavalcanti, da UFPE.

A AR compromete diretamente a qualidade de vida. As dores e a rigidez contribuem para um quadro de sedentarismo e sobrepeso, que aliados ao uso constante de cortisona, aumentam os riscos de problemas cardíacos. A fadiga crônica interfere no sono, fazendo com que as pessoas tomem o triplo de remédios para dormir, comparadas com a média da população. No caso dos que são mais ativos, a dependência constante pode levar à depressão.

Os sintomas podem confundir

Muitas vezes os sintomas da artrite reumatóide se confundem com a psoríase ou a gota, e a doença demora a ser diagnosticada - um tempo precioso quando se fala de doenças degenerativas. Um dos fatores que contribuem para o problema é que ainda existem poucos especialistas na área: são cerca de 1.500 médicos no Brasil para mais de 1 milhão de portadores de AR.

Os primeiros sinais que merecem atenção são dores e inchaços persistentes nas articulações, acompanhados de vermelhidão e sensação de calor. Se não houver regressão dos sintomas no prazo de duas a três semanas, é hora de procurar o médico. Os sintomas costumam ser mais fortes pela madrugada e de manhã, pois à noite o corpo humano produz uma quantidade menor cortisol, o antiinflamatório natural do organismo. ´Há casos de pessoas que levam até três horas para conseguir abrir e fechar a mão´, esclarece o médico Sebastião Radominski.

Atenção

A reumatologista Ieda Laurindo, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e presidente eleita para o exercício 2008 da Sociedade Brasileira de Reumatologia, chama atenção para um mito sobre a doença. Ao contrário do que muitos acreditam, a artrite reumatóide não é uma ´doença da velhice´, podendo ser observada em todas as faixas etárias, inclusive em bebês.

Os pais devem ficar atentos se as crianças estiverem muito quietas, evitarem andar ou se mexer, chorarem sem motivo aparente e as articulações apresentarem algum tipo de inchaço. O indicado e investigar se há histórico familiar da doença, embora a questão hereditária não seja definitiva e determinante, esclarece a reumatologista Ieda Laurindo.

Base genética

Não se sabe a causa da artrite, apenas que tem base genética e relação com os hormônios, sendo a incidência maior na população feminina em idade reprodutiva. Embora atingidos em menor número, os homens sofrem de AR em sua forma mais agressiva.

Não há prevenção nem indícios de que fatores como alimentação, clima ou estilo de vida tenham relação direta com a artrite reumatóide. No entanto, os hábitos saudáveis devem ser mantidos após o diagnóstico, pois contribuem para a rapidez da resposta do organismo.

Além da fisioterapia e terapia ocupacional, a reumatologista recomenda a adoção de uma dieta equilibrada, de modo a afastar o risco de sobrepeso, assim como praticar atividades física regularmente para que não haja atrofia muscular. Os exercícios só devem ser suspensos durante as crises agudas, pontua a médica.

Impacto

Segundo Sebastião Radominski, após o advento dos medicamentos biológicos, houve uma redução no número de internações causadas por doenças cardiovasculares e nas cirurgias de prótese. Radominski compara o impacto positivo dessa terapia à descoberta das estatinas para tratar o colesterol.

Apesar de queixas - relatos de dor, vermelhidão, náuseas e dores de cabeça - o tratamento é visto como o mais avançado para a AR. ´O perfil, a longo prazo, parece ser o mais seguro´, afirma Morton Scheinberg, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Até o momento, esclarece o médico, os medicamentos biológicos são utilizados somente em pacientes adultos não sendo indicados para gestantes. Pacientes com histórico de tuberculose e doenças neurológicas só podem se submeter ao tratamento se assinarem um documento manifestando estarem cientes dos riscos.

Eficácia

Morton Scheinberg ressalta que o tratamento com rituximab ou abatacept não é necessariamente o mais eficaz, devendo o médico ser o responsável pela escolha do medicamento mais adequado, em conformidade com o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas, do Ministério da Saúde.

Entre 20% e 30% dos pacientes respondem satisfatoriamente ao tratamento convencional aliado ao metotrexato, uma das mais conhecidas DMARDs (drogas anti-reumáticas modificadoras da doença), uma geração anterior aos biológicos. Trata-se de um remédio por via oral, mais barato e com menos efeitos colaterais. Se não houver avanços nesse intervalo de tempo, o especialista deve partir para outro tratamento, de preferência com um medicamento biológico, seja um anti-TNF, o rituximab ou o abatecept, sempre lembrando que duas drogas dessa classe não podem nunca serem usadas concomitantemente.

A jornalista viajou a convite do Laboratório Bristol-Myers Squibb

FIQUE POR DENTRO

Auto-ataque: o paciente como vítima e algoz

A artrite reumatóide, assim como os demais distúrbios auto-imunes, se desenvolve a partir do funcionamento inadequado do sistema imunológico, em que o organismo passa a atacar suas próprias células. O corpo joga contra si mesmo, fazendo do paciente vítima e algoz.

Apesar das inúmeras e milionárias pesquisas da indústria farmacêutica, as causas desse ´descompasso´ ainda não são conhecidas pela ciência. Sabe-se apenas que há relação com predisposição genética, embora isso não seja determinante. Ter um dos pais com artrite reumatóide não significa que o filho desenvolverá a doença.

Sem cura, as doenças auto-imunes não levam à morte, mas interferem de modo cruel no dia-a-dia dos pacientes. No caso da artrite reumatóide, atividades cotidianas como caminhar ou se vestir sozinho são inviabilizadas por dores, inchaços e rigidez nas articulações.

Mônica Lucas
Repórter