O coração de Fortaleza

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Amaury Cândido

Não é à toa que a Praça do Ferreira é conhecida como o coração da cidade. As pessoas têm a tradição de ir à praça, rever amigos, conversar, e sentar naqueles bancos nem que seja apenas para apreciar o burburinho popular.

Comparando-se aos demais logradouros públicos do Centro, a praça é limpa e bem conservada, apesar dos vândalos de plantão que insistem em estragar placas comemorativas afixadas ali. Num processo de agressividade gratuita, os irresponsáveis não roubam a placa mas danificam suas palavras retirando letras.

A Praça do Ferreira é assim batizada devido à atuação do boticário fluminense Antônio Rodrigues Ferreira, eleito vereador em 1842 e presidente da Câmara no ano seguinte, mantendo-se nesse cargo e função até o ano de sua morte, 1859.

Revela-nos o escritor Mozart Soriano Aderaldo sobre a praça: ´uma vez que o trabalho do engenheiro Silva Paulet se limitou, praticamente, a fixar o local do futuro largo, a esse trecho novo da cidade daria disciplinamento o arquiteto Adolfo Herbster, tanto na planta elaborada em 1859, sob o influxo do boticário Ferreira, como em outro trabalho seu, traçado dezesseis anos depois, em 1875, quando a persistente expansão da cidade no sentido sul e oeste assim o exigia.´

A obra do boticário Ferreira encontrou ressonância positiva do sábio suiço e americano naturalizado Louis Agassis, que visitou Fortaleza naqueles meados do século XIX em seu livro ´A Journey in Brazil (1865-1866)´: ´Gostei do aspecto da cidade do Ceará. Agradaram-me as suas ruas largas, limpas, bem calçadas, ostentando toda a sorte de cores, pois as casas que as ladeiam são pintadas dos mais variados tons. Aos domingos e dias de festa, todas as sacadas se enchem de alegres toilettes, e grupos masculinos enchem as calçadas, conversando e fumando. Ceará não tem esse ar triste, sonolento, de muitas cidades brasileiras; sente-se aqui, movimento, vida e prosperidade. Fora da cidade o traçado das ruas se continua através dos campos, que belas montanhas limitam ao longe. Na frente da pequena cidade corre uma extensa praia e o barulho do mar, batendo nos recifes, chega até o quarteirão central.´

Hoje em dia já não é possível ouvir o barulho do mar na Praça do Ferreira. O crescimento da capital abafou o som das ondas e a praça é usada para shows e manifestações que trazem outras vibrações.

A Praça do Ferreira passou por várias reformas até chegar ao aspecto que hoje se aprecia. Moderna e plana é como encontra-se.

A coluna da hora, originalmente construída em argamassa, depois da derrubada dos antigos cafés e posteriormente do abrigo central, de onde partiam os bondes para os diversos pontos da cidade, foi substituída por uma réplica em ferro fundido na forma que a original se mostrava. Em volta da nova coluna há uma fonte de esguichos múltiplos normalmente acionados em horas definidas quando casos de entupição não prejudicam funcionamento de jatos d´água e luzes do monumento. Por ocasião da última reforma, quando era demolida a galeria de arte subterrânea foram encontradas as antigas fundações da primeira coluna da hora e o cacimbão do século XIX.

A descoberta influenciou numa adaptação ao desenho da reforma e a base da coluna que seria circundada pela fonte sofreu um corte onde hoje podem ver-se as grandes pedras que formam o corpo daquele poço antigo. Ao lado da velha cacimba, a cidade moderna prestou homenagem ao boticário Ferreira colocando ali uma placa com a efígie do político e uma frase de agradecimento ao idealizador da praça. Infelizmente algumas letras de bronze colocadas para a identificação do sítio histórico foram roubadas, as pessoas jogam papel e a base do monumento normalmente está suja.

A Praça do Ferreira abriga em seu entorno prédios antigos como o a Farmácia Pasteur e o Palacete Ceará construídos na década de 1920, hoje agência da Caixa Econômica Federal; o Excelsior Hotel, da década de 1930, considerada a maior construção em alvenaria do Brasil, em vez das armações em concreto, foram usados como vigas trilhos de estrada de ferro. Outros edifícios, como os do cine São Luiz, do Hotel Savannah Hotel e da Companhia de Seguros Sul América vêm da década de 1950. Exemplos de arquitetura de épocas distintas, pode-se dizer: a Praça do Ferreira é eclética.

Algumas pessoas vivem o velho sonho do poço de desejos e não é difícil ver alguém que atire uma moeda, depois de fazer um pedido, naquela cacimbão bicentenário. Pedras trapezoidais foram dispostas em torno do novo monumento da coluna da hora e algumas placas foram afixadas reverenciando, por exemplo, o grupo literário Clã, cujos integrantes ali se reuniam. Fica a tristeza pelo fato de essa placa, em específico, ter sido danificada com a subtração de letras que compõem o texto que homenageia os escritores.

A Praça do Ferreira, entretanto é o ponto de partida do tão falado projeto de reestruturação do Centro de Fortaleza. A idéia da Prefeitura, do Clube de Diretores Lojistas e outras entidades é resgatar a vivacidade e importância que aquele bairro teve em outras décadas. Trabalho difícil, uma vez que cada dia é mais evidente a independência dos bairros da capital em relação ao Centro.

Houve há poucos dias o surgimento da idéia de se prestar homenagens aos escritores componentes da Padaria Espiritual com a deposição de estátuas dos principais nomes na Praça do Ferreira. O futuro dirá se o projeto vai vingar. Há também a idéia de um monumento evidenciando o troféu Euzélio Oliveira, entregue por ocasião do Cine Ceará, o festival de cinema que entra em sua 16ª edição e é realizado no cine São Luiz, naquela praça.

Enquanto os novos monumentos não surgem, acontecem os shows, as campanhas de serviços públicos ou apenas o encontro de velhos e novos amigos que vão ali conversar ou paquerar. Na Leão do Sul, parada obrigatória para o caldo de cana e pastel. Bom apetite!