O cemitério das obras de arte

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Depois dos cemitérios da Praça Castro Carreira, a Praça da Estação, que vieram substituir o hábito colonial de inumações dentro das igrejas, a mais antiga necrópole que hoje classificamos como sepulcro eterno é o Cemitério São João Batista. Os trabalhadores dão os últimos retoques para a maior data de reverência aos mortos, o dia 2 de novembro, Dia de Finados. Haverá missas às 8 horas, 10 horas, meio-dia e às 16 horas. Pelos nossos mortos, rogamos ´Requiem Aeternam´.

Amaury Cândido

Na década de 1960, ali pelo Jacarecanga, se se queria que crianças ficassem comportadas, bastava anunciar a vinda da ´mulher do balaio´. Aquela alta e forte senhora grisalha de saia rodada e seu cesto de flores era uma visão apavorante para a meninada. Ninguém a encararia se tivesse coragem de estar no aposento onde era recebida por mães, tias ou avós. Todos sabiam que ela vinha do cemitério e que as flores nasceram em volta dos túmulos. A tradição familiar, cujas bisavós herdaram de suas mães e avós, de manter roseiras no cemitério e usar as flores que brotavam na profusão daquele solo ricamente orgânico em casa, era suficiente para paralisar os pequenos. Aqueles vasos nunca se quebravam, pois ninguém pegava neles. Aos menores era impedido ver seus mortos. Os adultos iam aos ritos fúnebres e cemitério, só no Dia de Finados, onde as velas queimando e a emoção das pessoas por seus entes queridos, tocava a todos. Hoje o cemitério comporta cerca de 16 mil túmulos.

No ano de 1828, uma lei imperial recomendava às câmaras municipais que elaborassem posturas para tratar do estabelecimento de cemitérios fora do recinto das igrejas.

Era 1938, Fortaleza tinha ´pouco mais de oito mil almas (Abreu, 1919) encravada em dunas escaldantes e revoltas.´ Era costume arraigado enterrar-se os mortos dentro das igrejas ou em seus átrios e arredores. ´Questões relacionadas à Saúde Pública teriam sido responsáveis pela proibição das inumações no interior e vizinhança das igrejas. Acreditava-se que os gases produzidos pela decomposição dos cadáveres ocasionariam doenças´, revela Henrique Sérgio de Araújo Batista no livro Assim na Morte como na Vida.

Apenas em 1844, o Poder Público determina a edificação de um cemitério público, o Croatá ou São Casimiro. A decisão de onde seria o campo-santo foi dos então médico da pobreza, cirurgião mor da província e cirurgião ajudante do Corpo Fixo de Caçadores. A área vizinha ao morro do Croatá foi escolhida por reunir as condições necessárias ao empreendimento. O local ficava a sotavento da cidade e as exalações prejudiciais aos citadinos seriam dispersas pelos ventos. O projeto obedeceu critérios matemáticos que levaram em consideração a tabulação do número de falecimentos dos anos de 1845 (294), 1846 (286) e 1847 (170). A notícia da criação da necrópole foi publicada na edição do jornal O Cearense, de 3 de fevereiro de 1848.

O Morro do Croatá ficava contíguo onde hoje está a Praça Castro Carreira, a Praça da Estação. Com a epidemia do cólera, em 1856, foi acrescida uma área ao São Casimiro para sepultamento daquelas vítimas especificamente. O novo espaço foi separado por grade de ferro do plano já existente anteriormente.

O que foi previsto aconteceu muito mais rapidamente do que se imaginou. 16 anos depois o cemitério já se encontrava muito próximo ao Centro e com o agravante de estar sendo soterrado pelas dunas. A realidade é que eram dois cemitérios, porque os protestantes e demais acatólicos eram enterrados num cemitério privado que ficava vizinho ao São Casimiro, administrado pela Santa Casa de Misericórdia, o que foi oficializado em lei provincial de 1860. O privado ficava sob a responsabilidade da empresa Singlehurst & Co..

A discussão para a construção do novo cemitério tem lugar no início dos anos 60 do século XIX. Mesma inacabada, a nova necrópole foi inaugurada em 1866. O portão frontal do São João Batista está datado de 1872, mas este é o ano de conclusão da amurada e afixação do portão.

Os túmulos e despojos mortais dos cemitérios da Praça da Estação que tiveram condições, foram transladados para o São João Batista.

Como todo campo-santo, dali contam-se histórias de túmulos que racham após os consertos, barulhos estranhos; mas quem trabalha ali diz que nunca viu nada extraordinário. O certo é que há verdadeiras obras de arte adornando a última morada dos fortalezenses que têm famílias mais antigas na cidade.

É impossível precisar exatamente a quantidade de corpos que já foram sepultados no São João Batista. Desde o ano 2000, o registro de enterros é informatizado. Os dados anteriores estão em livros.

A Santa Casa de Misericórdia amarga prejuízos com a inadimplência da taxa de manutenção mensal e solicita aos cessionários que entrem em contato pelo telefone 3212 1578 para negociação da dívida, o que sai mais em conta que a cobrança judicial. Os principais gastos do cemitério são com segurança e limpeza. As fontes, além da taxa citada, são através da vendas de urnas, taxas para enterro, velórios e exumações.

A pedido da administração não identificamos os túmulos cujas imagens estão nesta página, excetuando-se o de Lúcia (à esquerda) onde podem ser vistas placas de mármore agradecendo graças alcançadas, e o do inquestionável escritor Quintino Cunha (foto circular) cujo epitáfio é de autoria dele mesmo: ´O Padre Eterno, segundo refere-se a história sagrada, tirou o mundo do nada e eu nada tirei do mundo.´