Guimarães Rosa: veredas e travessias

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Os Grupos de Teatro ´Expressões Humanas´ de ´Vitrine´ - ambos de Fortaleza -, por conta do centenário de nascimento de Guimarães Rosa, resolveram mergulhar na obra do escritor mineiro, em busca de captar-lhe o engenho criador e, a partir daí, construir um texto dramático, inspirando no metafórico e universal sertão que se desenha de dentro e fora do homem. O intuito é o de recriar a literatura e brincar com a reinvenção da oralidade no teatro. Eis o motivo central dessa edição.

Dilatar enigmaticamente o micro para se chegar ao macro e vice-versa; sair do nada para se chegar ao tudo e novamente ao nada num eterno recomeçar, numa travessia silenciosa que se faz circular, repetitiva, ritualística; é assim, que essa aparente irracionalidade constitui-se em permanente fonte de poesia: o que existe dilui-se, desintegra-se; o que não há toma forma e passa a agir, recriando-se. Para valorizar essa concepção, que ora se faz mítica, ora se faz real, pesquisamos ´O Mito do Eterno Retorno´ de Mircea Eliade que ilustra, no espetáculo, a construção desse cosmos onde o real por excelência é o sagrado. Mircea Eliade diz que ´Qualquer território ocupado com vista à fixação ou à sua utilização como espaço vital é previamente transformado de caos em cosmos; isto é, por um ritual, é-lhe conferida uma forma que o torna real.´

Sabe o nosso autor, melhor do que ninguém, fomentar um novo olhar diferenciado e crítico sobre esse pedacinho de universo para, a partir dele, chegar aos mistérios e grandezas feéricas do mundo, onde ´mandavam a audácia e a coragem, e o mundo todo, e o inexplicável e o irracional, e a bondade e a maldade, e o destino e o demônio, e o que o homem de si mesmo não sabe, isto é, as suas profundezas.´

Veredas do inefável

Carlos Drummond de Andrade, outro genial escritor, também penetra esse mundo particular de Guimarães Rosa para tentar nos dizer o indizível, para nos narrar o inenarrável. ´ No final, restam apenas pontos de interrogação, a nos mostrar que esse mundo de fantasia e realidade do sertão mineiro ainda é um mistério a ser desvendado. O sertão místico, a recriação da fala do sertanejo, o poder de descobrir a quinta face, o narrador o inenarrável, o responder- perguntar levando à reflexão, o pacto com o diabo: esse mistério de Guimarães Rosa.´

É exatamente esse mistério do artista que estamos a procurar nesse espetáculo, não para desvendá-lo ou consumi-lo secamente, mas para nos embrenharmos em seus encantamentos que se prolongam nas perguntas, por exemplo, de Riobaldo sobre o sentido da existência humana ou dos grandes mistérios do mundo. Nesse sentido, o ficcionista João Guimarães Rosa, à semelhança da escritura de Clarice Lispector, está contido onde não mais conseguimos calcular a grandeza que se abisma na falta das respostas, uma vez que ambos percorrem a atmosfera pastosa da condição humana.

Os rumos da travessia

A travessia proposta por Guimarães é uma aventura que se propõe ora particular, pequena e próxima, ora universal e infinita. ´O senhor tolere, isto é o sertão... Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima.´ Ou ´O sertão é o mundo´ e ´O sertão é dentro da gente´. Quando o autor se propõe ao jogo do desconhecido ele se lança ao precipício feito uma estrela cadente. Nesse mergulho, ele pára, retirando do fundo do poço, o esplendor do maravilhoso que acaba por dar um novo significado ao cobiçado e insignificante pão nosso de cada dia.

HERÊ AQUINO*
Colaboradora

*Diretora de Teatro

A dramaturgia de Encantrago

Encantrago é um texto livremente inspirado na obra de Guimarães Rosa, resultado de uma visita que a diretora teatral Herê Aquino, fez ao nosso grande mestre da literatura brasileira, e da qual resultou o espetáculo que está sendo ensaiado com estréia prevista para outubro de 2008.

Através do que se delineia como mais peculiar, Herê Aquino mexe e remexe no que poderíamos chamar de ´essencialidades Rosianas´ para extrair daí o inenarrável, o inexplicável, o indizível e recriar a cena teatral: ´procurei trazer para a cena essa complexidade do homem, do sertão e de Rosa, como se os três estivessem intrinsecamente ligados formando o indivisível, o quinto elemento, o uno´.

Essa concepção da diretora está em consonância com as palavras de Guimarães - Não há, de um lado o mundo e, de outro, o homem que atravessa. Além de viajante, o homem é a viagem - objeto e sujeito da travessia, em cujo processo o mundo se faz- e estabelece uma cumplicidade que se resvala no texto e, evidentmente, no processo de montagem do espetáculo.

O texto ´Encantrago´ prioriza os contrastes e ambivalências para enriquecer o paradoxal mundo sertanejo, onde ritualisticamente as coisas se consagram. Esse mundo, que se configura onde a vida é quase uma impossibilidade, é um mergulho no coração intratável e miraculoso do Brasil, como em ´O sertão é o desertão (...) É onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade´.

Esse mergulho - nesse homem cordial, ou seja, que age pelo coração, portanto pelos impulsos e pelo arbítrio - tem a pretensão de chegar aos vastos espaços recheados de matéria prima, onde esse homem povoa sua imaginação, criando e recriando a ´fantasiação´ e descobrindo um sentido para o existir.

É captando essa complexidade, que a diretora conseguiu chegar nessa investigação que ultrapassa o particular, demarcado por um estereótipo de um sertão geográfico, e beirar a arrojada e desafiadora complexidade humana.

´Encantrago´ intui essa visão de mundo real e imaginária, para se construir de forma mais concreta em cena, confirmando que o teatro, propriamente dito, como disse Lehmann (2007)[1], não é apenas o lugar dos corpos submetidos à lei da gravidade, mas também o contexto real em que ocorre um entrecruzamento único de vida real cotidiana e vida esteticamente organizada.

Portanto, para que a escrita cênica de ´Encantrago´ seja ritualisticamente representada no palco, forma e conteúdo devem transcender a dramaturgia e possibilitar, através da concepção cênica da diretora e do trabalho dos atores, o espaço indiscutível da fabulação que é, propositadamente, a origem das veredas por onde fluem todos os grandes mistérios que, assim, pois, compõem o imaginário do povo sertanejo.

Sendo assim, penso que o espetáculo demonstrará não só um cosmo pré-estabelecido pelas tradições culturais que demarcam as fronteiras geográficas do sertão, mas e, principalmente, a força que se configura e que nos é maravilhosamente assustadora: a grandiosa vastidão dos sertões humanos.

ZEILA COSTA*
Colaborada
*Professora e Antropóloga

FIQUE POR DENTRO

Retrato de Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo, filho de Dona Chiquinha e Seu Fulô, nascido a 27 de junho de 1908 e falecido a 19 de novembro de 1967, três dias após a posse emocionada na Academia Brasileira de Letras, dedicou sua vida à medicina, à diplomacia e fundamentalmente às suas crenças, descritas em sua obra literária - uma das mais criativas em termos de modernismo brasileiro. Sua primeira obra foi Magma, um livro de poemas, com o qual obteve um prêmio da Academia. O livro ficou inédito. Rosa só veio a estrear para o público, de fato, em 1946 com um livro de contos que se tornaria um marco em nossa literatura: Sagarana. Mas sua consagração definitiva viria dez anos depois, com o romance Grande sertão: veredas. Eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, só tomaria posse em 1967, morrendo três dias depois.