Frades alemães no Otávio Bonfim

Ler
No último quartel do século XIX, a Província Franciscana de Santo Antônio, sediada no Nordeste, originária de Portugal, contava com um reduzido número de frades menores, para fazer frente à avalanche de obrigações religiosas e comunitárias. Em razão desse fato, fez um apelo às províncias franciscanas da Europa, em tom de socorro, encontrando ressonância na Província Franciscana da Saxônia, na Alemanha, que aquiesceu em mandar frades ao Brasil, para reforçar os recursos locais.

A Província de Santo Antônio, a 12 de dezembro de 1889, foi confiada à Província da Santa Cruz da Saxônia. Na data de 27 de dezembro de 1892, chegaram da Europa os novos confrades que se instalaram no Convento de São Francisco de Salvador-BA. A incorporação jurídica teve como base a Congregação Capitular dos antigos e novos frades realizada no dia 2 de março de 1893. Assim, teve início, notadamene, a reforma e a renovação da Província de Santo Antônio, no Nordeste brasileiro.

Em 1º/03/1929, foi lançada a pedra fundamental da Igreja de Nossa Senhora das Dores, que sucedia à antiga capela de São Sebastião, levantada na praça a que deu nome, depois soerguida na antiga Estrada do Gado, atualmente, rua Dr. Justiniano de Serpa. Frei Odilon Gethaus e Frei Lucas Vonnegut, ambos alemães, foram os dois grandes construtores desse templo e do convento franciscano anexo. O primeiro, por motivos de doença, não chegou a ver as obras concluídas, justo por ter falecido em 22 de janeiro de 1930, quando chegava aos 59 anos de idade.

Para dar continuidade aos trabalhos, Frei Lucas Vonnegut, modelo perfeito de discípulo do ´poverello de Assis´, chegou a Fortaleza, aos 25 de janeiro de 1930, vindo de Canindé, onde era superior interino do convento. Em 13 de junho de 1930, dia de Sto. Antônio, deu-se a festa da bênção da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Em 18 de novembro de 1932, coube a D. Manuel da Silva Gomes abençoar os sinos, vindos da Alemanha, bem assim o altar-mor do templo recém-construído. Após essa solenidade, houve missa cantada, tendo por oficiante Frei Lucas Vonnegut.

Muitos frades alemães passaram pelo convento do Otávio Bonfim, tanto assim que, durante a II Guerra Mundial, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, o prédio foi sitiado, tendo o claustro conventual sido ocupado durante um dia, para uma longa operação das forças de segurança interna, que realizaram varredura infrutífera, em busca de rádio-transmissores ou quaisquer elementos, que se prestassem à espionagem; o resultado, como não podia deixar de ser, foi negativo, porque embora germânicos, os religiosos não tomavam partido no conflito belicoso.

Para o laicato, as investidas do povo brasileiro, com os brios feridos pelo torpedeamento de navios mercantes do Brasil, foram de pura e absoluta retaliação. De fato, propriedades e bens pertencentes a cidadãos do Eixo (alemães, italianos e japoneses) foram violados e alvo de pilhagem dos nossos compatriotas, que observavam aqueles como inimigos da Pátria. Aqui, em Fortaleza, o Jardim Japonês, de Seu Guilherme Fujita, foi arrasado ou destroçado pela turba; as Casas Veneza, da família de Francesco, foram saqueadas e depredadas; as lojas de tecidos, da família Lundgren, foram pilhadas, ainda que pertencessem a alemães apátridas, perseguidos na Alemanha nazista, por serem judeus.

Muitos foram os frades tedescos que atuaram na Igreja, e, depois, na Paróquia de Nossa Senhora das Dores (criada pelo Decreto nº 02, de 20/09/1963, da Arquidiocese de Fortaleza), como: Frei Cecílio Sommer, Frei Teodoro Haerke, Frei Hildebrando Kruthaup, Frei Francisco Solano Szczepanek, Frei Venceslau Wallerus, Frei Hermano Wiggenhorn, Frei Fernando Schnitker, Frei Gregório Reckers, Frei Rainério Kroger, Francisco José Goedde, sendo até difícil listá-los, assim, completamente.

Mais complicado é destacar os feitos e as obras de cada um deles, não obstante terem todos, em comum, o espírito empreendedor, a tenacidade e a disciplina germânicas, logicamente que acostados às condições externas, servindo de êmulo à concretização dos trabalhos projetados. A título de representação de diferentes momentos inscritos na história do convento franciscano, à guisa de exemplo, o perfil de quatro desses frades, que depois de um profícuo trabalho, retornaram à Casa do Pai: Frei Teodoro -um franciscano zeloso e desportista nato, Frei Hildebrando - empreendedor audacioso e humanista; Frei Lauro - um apóstolo da juventude, e Frei Humberto - um evangelizador social, exibe a marca indelével das ações realizadas em prol da comunidade do Otávio Bonfim, bem como de seus arrebaldes.

Otávio Bonfim & Farias Brito

bairro de Fortaleza que muitas pessoas chamam de Otávio Bonfim, no código urbanístico da cidade tem, na verdade, o nome de Farias Brito. De igual forma, a praça que fica em frente à Igreja de Nossa Senhora das Dores, diferentemente do que imaginam os transuentes, é denominada Praça dos Libertadores. Otávio Bonfim, assim conhecido o bairro Farias Brito, foi integrante do quadro de pessoal da antiga Rede de Viação Cearense, tendo sido por conta da sua condição de engenheiro, responsável por obras da RVC, que a sua figura ficou vinculada àquela área da cidade, dando nome, inclusive, à primeira estação do trem, após sua saída do terminal, no centro de Fortaleza, na direção norte-sul. O cine Familiar, vizinho à Igreja das Dores, por muitos anos, até o final da década de 1960, polarizou a atenção do moradores do bairro, que tinham ali um ponto de encontro para assistir filmes projetados, com o maior cuidado, pelo Vavá, um amante, como poucos, da sétima arte.

As pessoas confundem Praça das Dores com Praça do Otávio Bonfim. Na verdade, nem uma coisa nem outra. A praça é dos Libertadores e, se por acaso, tornou-se conhecida como Praça das Dores, o fato deveu-se à Igreja de Nossa Senhora das Dores, ali construída em 1932, e entregue aos frades franciscanos, muito dos quais alemães, empenhados em difundir a palavra de Cristo, entre os moradores da área, especialmente o grupo de jovens, fossem eles mais ou menos abonados.

A história do bairro, que de direito é Farias Brito, e de fato, é chamado de Otávio Bonfim, ganhou notoriedade por seu ecletismo, haja vista o registro de uma convivência pacífica entre quem, por exemplo, trabalhava, sol e chuva, no ferro velho, junto ao Mercado São Sebastião e quem, como o Sr. Jusako, cultivava flores, no Jardim Japonês. O catolicismo, por sua vez, convive em paz, com outras manifestações religiosas, haja vista a existência, no bairro, de muitos cultos evangélicos.

A renda ´per capita´ dos moradores também é bastante variável. Há comerciantes, profissionais liberais, residindo na área, do mesmo modo que a marginalidade também dá suas caras ali, sendo os abusos coibidos pelo 3º Distrito Policial, instalado bem ao lado da linha do trem. O charme do bairro está na sua diversidade e, certamente, no clima de interior, que ainda circula por lá.

MARCELO GURGEL CARLOS DA SILVA
*O colaborador é professor titular e Coordenador do Curso de Medicina da UECE.