As máscaras de Clarice

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Clarice Lispector encanta por conseguir falar do humano com uma propriedade de quem percebe o corpo como alma e arma dentro das debilidades da condição humana.

Alma e arma. O corpo como possibilidade concreta de expansão ou de prisão do ser? Não conseguimos resposta. Mas corremos para ela, somos de tal modo arrastados pelo seu fascínio, que já não conseguimos vislumbrar a grandeza escondida na falta de resposta.

Talvez tenha sido exatamente essa falta de resposta, que me estimulou na idéia da adaptação da obra para o teatro. Ela surge, portanto, como mais uma das inquietação que me movem numa pesquisa que venho desenvolvendo, já a algum tempo, sobre o ´absurdo´ na condição humana. Segundo Albert Camus o absurdo expressa, antes de tudo, a relação do eu com o mundo, e é experienciado como um divórcio ´entre o homem e a sua vida, entre o ator e o seu cenário´. Ele brota da cisão entre o desejo de unidade, de absoluto, e a pluralidade contraditória das idéias e dos fenômenos; entre a procura de uma salvação capaz de resgatar a finitude da condição humana e o inevitável fracasso que a caracteriza. Escreve Camus que o ´absurdo nasce deste confronto entre o chamamento humano e o desrazoável silêncio do mundo´.

Como nos textos do teatro do absurdo as histórias de Clarice Lispector não trazem grandes acontecimentos; ao contrário, seus personagens são seres imóveis, retidos em teias e em impasses que ultrapassam o meramente cotidiano. Seres adoentados da palavra e que procuram na palavra a cura. Só que a língua é o território da dessemelhança, uma torre de babel, fato que os leva a se defrontar, por fim, com um abismo de perguntas.

Por esta razão, Clarice é a escritora do Eu em pedaços, do olhar para dentro ou do olhar que cerca as criaturas, revelando-lhes os desejos, a ausência deles, as paixões, a ignorância, os mistérios, o sofrimento, a dor de existir. É a escritora da face explodida, condição afinal que define o homem no século 21 e que definiu, também, os dos séculos de guerras e pós guerras.

Tudo isso são inquietações que, juntando-se a outras que perpassam os problemas sociais, valorizam e tornam ainda mais complexa a busca pela compreensão da condição humana e que vem, de alguma forma, refletindo-se incisivamente nos últimos trabalhos que montei. Entre eles: Larilará Macunaíma Saravá, Deus Danado e Ritos do Absurdo, esse último trazendo fragmentos inspirados em textos de Samuel Beckett e Clarice Lispector.

Minha preocupação maior quanto à concepção do espetáculo ´A Hora da Estrela´, baseada, evidentemente, no romance de Clarice Lispector, está em conseguir transpor para o palco a tão almejada simplicidade buscada pela autora quando da criação de seu texto.

Por isso todo o trabalho de direção está sendo centrado na figura do ator que, através do seu corpo, ´sente´, ´interpreta´ e ´age´, por meio das palavra lapidadas de Clarice. Palavras que ´atravessam agudas o ar em busca de ações... palavra é ação´, como ela mesma diz.

De cenário, apenas duas cadeiras, uma mesinha com uma pequena caixa de madeira de onde Rodrigo S.M. tira pequenos adereços para compor, em quanto cria, os seus personagens.

A luz do espetáculo dará a localização quanto ao espaço e ao tempo necessário para o entendimento da obra, mas não será um tempo datado nem um espaço geograficamente localizado. Com isso queremos demarcar o sentimento universal contido na obra. É uma situação que pode acontecer em qualquer canto e em qualquer época. Basta que, para isso, existam dois seres que mesmo não sabendo porque tenham, em si, o sentimento de exclusão do mundo.

Macabéa é alagoana, tem 19 anos e foi criada por uma tia beata que batia nela. É totalmente leiga do mundo a sua volta e completamente inconsciente de tudo. Todo os dias ouvia a rádio relógio, porque ´era a rádio perfeita pois dava curtos ensinamentos dos quais talvez algum dia viesse precisar saber´. É feia e mora numa pensão em companhia de 3 moças que são balconistas em uma loja de departamentos. Esse é o perfil de Macabéa realçado por Rodrigo S.M. durante toda a obra. É o perfil, também, de milhares de moças nordestinas que vivem nas grandes cidades. É o macrocosmo refletindo o ´mundo de fora´, tão importante para se falar dessa irracionalidade que é a condição de miséria econômica onde estão mergulhados a grande maioria do povo brasileiro.

Mas Clarice Lispector ansiou trazer Macabéa para se grudar em nós como se grudou nela ´qual melado pegajoso´ . Não seria mais uma anônima, igual a milhares de nordestinos que vivem no Rio ou em outras grandes cidades, ´filhas de um-não-sei-o-quê que vivem com ar de desculpa por ocupar espaço´ e que devido a banalização da fome e da vida a muito deixamos de enxergar. Não, ela seria Macabéa, a nossa Macabéa, da qual não poderíamos fugir e nem fechar fingindo não estar vendo a alienação angustiante e sufocante que permeiam o mundo das milhares de Macabéas.

Nesse fragmento que se segue da Hora da Estrela, ´Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém´, encontra-se o retrato do capitalismo no que ele tem de mais cruel, a coisificação do homem e os homens como peças de máquinas facilmente ´substituíveis e que tanto existiriam como não existiriam´.

Macabéas, Marias, Zé Ninguéns, ressaltam a falta de sentido de um mundo onde a miséria humana e moral e a não conscientização e não indignação do homem, demarcam o abismo onde cada vez mais nos afundamos. É um grito, um assovio, que atravessa agudo o vento escuro.

Segundo Aristóteles, Tragédia é o gênero teatral em que se expressa o conflito entre a vontade humana, por um lado, e os desígnios inelutáveis do destino, por outro. A decisão trágica se dá, portanto, entre os desígnios dos deuses e os projetos ou as paixões dos homens. Exprime o debate entre o passado mitológico e o presente da pólis, ou cidade.

Já Hegel, na sua estética diz: Aquilo que de fato interessa no drama, na tragédia e na comédia antiga é o universal e essencial da finalidade que os indivíduos realizam.

Nossa vida contemporânea, portanto, faz com que nossa carência esteja, ao mesmo tempo, em manter pontos de vista universais e em ajustar o particular, seja no que se refere à vontade seja no que se refere ao bom senso.

Estando nosso mundo limitado a uma pequena parcela do todo, isso impede que o sujeito se identifique com as grandes forças éticas e estas tenham neste sujeito singular o seu representante, que seria uma das características principais da tragédia antiga e o que, de alguma forma, afastaria Clarice da essência trágica no sentido clássico do termo.

As obras de Clarice são romances sem ação externa, voltada para o interior das personagens. Possui um caráter de introspecção, onde a autora mergulha em si mesma através de personagens construídas a partir de dores e angústia de seres humanos diante de um mundo que não os levam a realizações plenas. São verdadeiras elaborações existencialistas que refletem questões individuais e coletivas das grandes massas no universo mínimo de cada indivíduo. Isso colocaria, de alguma forma, Clarice dentro do que seria o sentido mais amplo e atual do termo trágico.

Mas a tragédia em Clarice, particularmente nessa obra, consistiu em ter que escrever um livro, como ´A Hora da Estrela´, que é uma verdadeira leitura da própria arte literária, dentro de um mundo caótico. Um mundo onde a arte parece representar muito pouco diante da fome, do medo e da dor coletiva dos milhares de humilhados e explorados do nosso mundo contemporâneo.

As personagens de Clarice Lispector são seres em buscas da revelação do mundo interior e desconhecido de nós mesmos. A existência exterior, enquanto percepção dos valores sociais opressivos, não é fator determinante nas suas obras, só tendo seu real significado enquanto causador de uma realidade interior eternizada pela possibilidade de uma descoberta completa do ser e do nada.

Mas isso, a meu ver, não minimiza nem desvaloriza a complexidade da obra de Clarice, nem tampouco distancia alienadamente a escritora do mundo a sua volta. É apenas um outro olhar, um ângulo diferente que nos faz mergulhar no âmago de suas personagens e conseqüentemente de suas vidas.

O que então continua nos atraindo para suas personagens? A profunda identificação com as dores e angustias existenciais. Aflições que nos remetem as dores e angustias do sentimento do universal, do sentimento de pertencer ao humano. Percalços da existência que não devem conter juízos de valores porque não são menor ou maior que nada, são apenas obstáculos que nos mostram as fragilidades humanas.

Herê Aquino
Diretora de Teatro