A indolente viagem ao sapateiro

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Edson Sousa busca as chaves da ´lógica que anima os processos de criação´. Sua equação é radical: sem criação não há utopia. Todavia a criação deve ainda obedecer a duas exigências fundamentais: a sua dimensão política.

Na bolha imensa que recobre os escuros da imaginação, o futuro não é mais do que o ar rarefeito que cada qual busca, sofregamente, inalar em seus próprios pulmões. Em tal lugar, outrora seguro e pacato, cada centímetro cúbico de oxigênio é disputado até a morte.

Todos estão muito ocupados em respirar, evitando cada esforço adicional, cada pensamento desnecessário, cada palavra excessiva. A iminência da morte e da aniquilação também gera o colapso da imaginação e a preguiça do pensamento. A partir daí como provocar então ´a experiência radical de perfuração de futuros opacos e sombrios´?

Edson Sousa, em seu livro ´Uma Invenção da Utopia´, persegue esse alerta. Não há mais passado que legitime e explique a ausência de inquietação sobre o futuro. Todas as desculpas devem ser deitadas ao chão e as lamentações sobre o passado - que não foi - e o futuro - que não será - tornaram-se há muito ´imperativos do consenso´ que é preciso perturbar. Num mundo sem utopias não poderá haver responsabilização por nossos próprios fracassos, eles serão apenas lamentados e pranteados. Mas a utopia, que Edson Sousa examina como um lapidador de pedras brutas, se instaura na responsabilização do instante, na inquietude pelo impossível e nas fendas do constituído.Portanto o compromisso ´com o amanhã´ não é outra coisa senão desejo de transposição. ´Pensar é transpor´. Essa frase emblema de Ernest Bloch percorre a reflexão do autor do começo ao fim e restaura a mutualidade constitutiva do pensamento, da criação e da desobediência.

Toda utopia que morre revela-se então como um simulacro de utopia, como embuste aperfeiçoado e caro que degrada a imaginação e zomba do porvir. As utopias que morrem não são utopias. A ´ruína dos saberes instituídos´ e o fim das promessas não cumpridas não são o fim das utopias, mas o seu princípio.

Trata-se de uma posição que se radicaliza na crítica, não apenas ao pensamento formal, mas também à arte como horizonte da forma e do conteúdo, como objeto de valor e como mercantilização do fazer criativo. Onde estará a crise na arte? Crise que se funda no próprio território onde ela se refaz inteira para, mais adiante, se desfazer novamente. Imobilizado para perdurar, como restaurar o fazer artístico contínuo e constituinte? Onde encontraremos a contrariedade e a desobediência na arte e no artista?

Entre os objetos prestes a serem descartados, Sousa bate o pó da utopia e reassegura o seu princípio ativo. Mas a utopia, como horizonte do insuficiente e crítica do instante, exige mais do que a disposição para o ofício. Ela se impõe como ´invenção da vida´. Lá, na longa viagem até o sapateiro, descrita nas primeiras páginas de seu livro, com nossas mãos repletas de objetos estragados, é que se evidencia o caminho da crise para a qual os objetos velhos nos conduzem. Momento em que o sapateiro, diante dos objetos a consertar, desloca-se do homem descartável para homem necessário, ao mesmo tempo em que impõe seu ofício e diagnostica sua situação: Se os objetos não estragassem ´eu não viveria´.

Como sobreviveria o sapateiro sem esse momento, imediatamente anterior à morte das coisas, quando seu trabalho, sua vida e ele mesmo voltam a fazer sentido no universo dos objetos sem conserto e na melancolia de tudo que ´não tem mais jeito´. A Morte do sapateiro revela-se, portanto, como a morte de cada um de nós.

Paulo Endo
Colaborador *